sexta-feira, 7 de abril de 2017

(...) Mas eu quero ser jornalista.

Foi cedo que falei em comunicação social, mas não foi tão cedo assim que falei em jornalismo. A comunicação social não se resume ao jornalismo, mas a verdade é que o jornalismo é um pedaço muito peculiar da comunicação social. Pensar verdadeiramente em jornalismo talvez tenha acontecido apenas quando chegou o momento de preencher a candidatura de acesso ao ensino superior. É, no entanto, possível que esse pensamento tenha sido fruto daquilo que os outros percecionavam quando eu falava de comunicação social. O meu percurso ficou assim marcado pela minha feliz entrada num curso chamado de comunicação social. Em setembro, toda eu queria estudar jornalismo, mesmo sabendo que a licenciatura em que me encontrava se dividiria no segundo ano em dois ramos e só um estava ligado ao jornalismo. Ignorei integralmente o outro ramo, que dizia respeito à criação de conteúdos. Editar, mexer em computadores e naqueles programas esquisitos não seria, de todo, aquilo que eu almejaria para mim. Durante todo o primeiro semestre do meu primeiro ano, quis seguir o ramo 1: jornalismo e informação. Porém, eis que chega o segundo semestre e traz consigo as cadeiras mais ligados ao jornalismo mas também à produção audiovisual. 
Enquanto que a produção audiovisual incrivelmente me apaixonava cada vez mais, a área jornalística frustrava-me cada vez mais. A certa altura, vi-me gritar aos outros e repetir para mim mesma "eu não quero ser jornalista". Apesar de os trabalhos finais de todas as cadeiras me terem agradado, quando chegou a altura de decidir o ramo, escolhi o segundo: criação de conteúdos para novos media. Foi uma decisão muito pensada e debatida. Já não afirmava com toda a certeza que não queria ser jornalista, já não odiava o jornalismo, apenas estava demasiado fascinada pela sétima arte, pela realização e produção audiovisual. Não me arrependo. Já aprendi coisas que seria impossível aprender fora da licenciatura. E se quero ser jornalista? Acho que nunca quis tanto. Porque, na verdade, agora tenho umas luzes do que realmente é o jornalismo. Sim, frustra muito. É desesperante! No entanto, é exatamente por tudo isso que é fascinante. Enquanto que o resto me apaixona, o jornalismo seduz-me, fascina-me. É impossível de se desvendar todos os detalhes jornalísticos. E é claro que eu quero desvendar tantos quantos conseguir, e é claro que eu quero ser jornalista. Hoje, mais do que nunca, porque efetivamente agora sei, o jornalismo não é só uma profissão, não é só uma forma de se fazer alguma coisa da vida. 
O jornalismo é, como já muitos disseram, uma profissão nobre. E não se pense que os aspirantes a jornalistas não sabem de como está triste e de como é desprezada a profissão. Hoje, é o dia do jornalista e eu sinto vontade de chorar. Porque eu quero ser jornalista, mas eu recuso-me - porque tenho princípios - a praticar um jornalismo sujo. Eu quero ser jornalista, mas eu quero obedecer ao direito e à deontologia da comunicação. Eu quero ser jornalista, entre tantas outras coisas que quero ser, porque ainda que não esteja disposta a dar a vida toda ao jornalismo, estou disposta a dar-lhe por inteiro o pedaço que der. Eu quero ser jornalista, porque me preocupo com a sociedade, porque quero fazer alguma coisa pelos outros, porque quero denunciar abusos e divulgar o que deve ser conhecido. Eu quero ser jornalista porque quero provar a mim mesma e aos outros que o jornalismo só é jornalixo quando nele trabalham as pessoas erradas ou se regem os princípios errados. Eu quero ser jornalista porque eu acredito no jornalismo como uma prática ilustre, quando corretamente praticado. Eu quero ser jornalista também porque sou masoquista e tenho um q.b de altruísmo, e também porque quero ter coragem. Porque, digo-vos, não acredito que os jornalistas não tenham um q.b de masoquismo, altruísmo e coragem. Eu quero ser jornalista porque o jornalismo é fascinante e me prendeu desta forma agridoce e misteriosa que me impede de me desprender. E mesmo com todos os "mas" e com toda a pena da sociedade - porque juro que ela existe - eu quero ser jornalista. Quero ser jornalista, mesmo exposta a todas as críticas e esconjuros em praça pública. Afinal de contas, se eu tenho coragem para dizer publicamente que quero ser jornalista, ai de mim que não tenha coragem de ser jornalista! 

Aqui, fica o desabafo, o conjunto de pensamentos de uma eventual aspirante a jornalista. Aspiro jornalismo com cuidado, dada a sua peculiaridade. Tenho sempre presente que esta não é uma profissão qualquer. O nome do artigo era para ser "Eu quero ser jornalista, mas...", mas afinal não há "mas" que me faça não querer ser jornalista, há sim o que não me faça querer ser jornalista repleto de "mas". Eu não vou começar a frase com "eu quero ser jornalista, mas...", eu vou acabar a frase enumerando todos os motivos pelos quais eu poderia não querer ser jornalista, dizendo "...mas eu quero ser jornalista!".

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