segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Falar de saudade sem escrever saudade

A cidade está deserta
Sem ti. 
As ruas vivem desamadas 
Sem ti. 
E eu, oh, eu!, não sou 
Se não metade de mim
Se não metade do meu amor 
Sem ti. 
Preciso-te 
Em cada dia
E sinto-te a ausência 
Em cada noite. 
Ainda ouço, acredita 
A tua voz a sussurrar no meu ouvido 
As letras das baladas que ouvimos juntos 
Junto ao Mondego... 
De capa traçada, 
Privilégios de estudante;
E de dedos entrelaçados,
Privilégios do amor. 
Ouço a tua voz 
Em cada balada que agora escuto 
Na dor da ausência de ti. 
A cidade está deserta
Sem ti. 
E eu ainda grito em silêncio 
O teu nome.
A magia apagou-se 
A tradição parece perder-se 
Em cada metro de calçada 
Se tu não vives cá 
Eu vivo sem ti 
Sem magia e sem tradição. 
Eu vivo
Eu sobrevivo
Sem ti.
Sem ti 
Estou como a cidade deserta.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

À Dona Irene, qualquer que seja o seu nome.

Era sexta-feira, o dia de lhe irem limpar a casa. Como não gostava de ver os outros limpar, a Dona Irene decidiu apanhar um comboio e ir lanchar a Coimbra. Eram cerca de duas horas de viagem, desde Valadares. Mas o que são duas horas na vida de uma mulher que é sozinha? Há quinze dias atrás, fora com uma amiga, hoje, a amiga não pudera, então, foi assim mesmo, sozinha. Estamos em finais de fevereiro e os primeiros raios de sol já acompanham o dia-a-dia. Ficar em casa num dia assim é pecado. 
Foi lanchar a Coimbra, a Dona Irene. E, na viagem de regresso, sentaram-se no banco à sua frente dois estudantes. Eram namorados. Trocavam beijos e mimos durante a viagem. Ele ia sair em Aveiro, ela um pouco mais à frente. Trocavam os beijos da despedida quando, antes de ele sair, a Dona Irene confessa: "Eu só tenho pena de não ter aqui um papel e uma caneta para fazer um risquinho por cada beijo que vocês já trocaram" O jovem casal sorri e Dona Irene acrescenta: "Não me levem a mal, eu gosto muito de ver o amor." O casal volta a sorrir e ele sai despedindo-se dela. 
Ela, a jovem, uma amante incondicional de viagens de comboio e da oportunidade de conhecer pessoas e de comunicar, de trocar palavras inéditas com pessoas nunca antes vistas e com quem não havia certeza de se voltar a encontrar. A Dona Irene continuou o seu discurso, a contar como gostava de ver o amor no mundo. A jovem concordava com a senhora que lhe era tão simpática. E conversava com ela, amigavelmente. A Dona Irene contou-lhe que era sozinha, que o marido morrera um mês antes de fazerem cinquenta anos de casados. Na cama do hospital, olhou-a e disse-lhe "amo-te", ela respondeu "Eu também te amo, mas não te consigo salvar", ele fechou os olhos, ela perdeu-o. Cinco anos depois, perdeu o único filho que teve. A nora não lhe fala, o neto, é um jovem nem-nem de 27 anos que pouco lhe liga. Tem uma sobrinha a estudar economia e uma irmã com quem mantém contacto suficiente para falar delas com carinho. 
Mas a Dona Irene continua a viver. 80 anos de viagens, de passeios e lanches em cidades diversas, de conversas com desconhecidos, de saudades. 80 anos, ali, à minha frente. E eu senti-me tão pequenina e feliz por me ter cruzado com esta senhora, que decidi chamar Irene mas, na realidade, nunca chegamos a saber o nome uma da outra. É por isto, é tanto por isto, que amo o mundo e a vida e que sou feliz.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Sou filha do Mundo

Sou filha do mundo e só o mundo me pode dominar. Só o mundo pode enviar-me para um ou outro caminho, só o mundo me pode manter aprisionada numa vida qualquer. Sou filha do mundo, porém, estou isenta de dono e de domínios. O mundo é livre e eu, sendo sua filha, sou-o também. Sou filha do mundo e somente o mundo poder-me-ia julgar. Sou filha do mundo. Vivo de acordo com as ideologias reprovadas pelos outros. Vivo de acordo com os meus (in)constantes devaneios. Percorro destemidamente cada ruela que se abre à minha frente. Vivo de cidade em cidade, a ansiar pelo desconhecido, engrandecem-me as camas onde durmo, as casas que visito e as pessoas que conheço. Engrandece-me o mundo e as suas revelações. Engradece-me o não ser de ninguém e o não possuir ninguém por tempo demasiado. Engrandecem-me os olhares repletos de censura com que sou defrontada. Engrandecem-me os meus antagónicos pensamentos e as minhas impulsivas determinações. Engrandece-me a liberdade de ser do mundo, de não ter pouso certo, de vadiar feliz da vida, de me assumir orgulhosamente como uma depravada sem rumo, uma inócua e cândida personagem que habita tudo o que encontra e não lhe pertence. Engrandece-me a entrega que proporciono à boémia. Sinto-me humildemente grande, pela entrega que asseguro ao que me defronta. Nenhum outro modo de vida me completaria. Não há copo que me vicie, nem droga que me controle. Não há palco que me refreie nem homem que me dome. Não há óbice que me induza ao vacilo. O meu corpo é uma eterna chama acesa que nenhum pedaço de água se atreve a afagar. A minha mente é uma desobstruída peça, idónea de sobrepujar as mais degradantes peripécias. Vivo encantada com a minha capacidade de livre arbítrio, engolida pelos meus sonhos estrambólicos. Busco definições do que é indefinido, e procuro o possível do que todos consideram impossível. Usufruo de ilimitada liberdade e respiro com vivacidade. Não temo a morte, nem detenho receios concretos. Sou filha do mundo e só o mundo decreta o meu destino. Sou filha do mundo e somente o mundo poderá apoderar-se de mim. Sou filha do mundo e, por isso, vivo sem amarras, sem se's e mas's. Sou filha do mundo e, por isso, não sou de ninguém. Sou filha do mundo e estou ao alcance de todos os meus impulsos e vontades momentâneas. Sou filha do mundo e o mundo é a minha casa. Confio no mundo e nos seus outros habitantes, confio na vida e nos sorrisos com que me cruzo, confio na bondade humana e nos afetos do momento. Confio no mundo, afinal, sou sua filha. Sou filha do mundo e, por isso, sou livre e tenho todo o tempo do mundo para viver. Sou filha do mundo. Ou talvez seja apenas jovem.