terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Espiral do Silêncio no caso Pedro Dias (Imprensa local - Arouca)

Este trabalho surge no âmbito da unidade curricular de Sociologia dos Media, e tem como objetivo analisar um dos casos mais recentemente falados e abordados pela comunicação social portuguesa - o caso Pedro Dias- no contexto de imprensa local - Arouca, de onde Pedro Dias é natural - e relacioná-lo com a teoria da Espiral do Silêncio. A pertinência da relação entre estes dois polos tem que ver com o facto da imprensa local e o jornalismo de proximidade serem pouco abordados nas licenciaturas de jornalismo e comunicação, quando a sua importância não deve ser esquecida, aliás, este é considerado, por alguns autores, "um jornalismo do futuro". Porém, em situações mais controversas, este jornalismo de proximidade pode causar embaraço. Terá sido este fator que terá levado à Espiral do Silêncio na imprensa Arouquense.
A teoria da Espiral do Silêncio, proposta por Elisabeth Noelle, defende que as pessoas que têm uma opinião minoritária tendem a silenciar-se, isto devido ao medo da reprovação por parte da maioria. Nesta teoria é importante, também, ter-se uma noção do que é a opinião pública. Embora não exista uma definição concreta de opinião pública, pode dizer-se que esta consiste na opinião maioritária ou que é a conclusão de todas as opiniões. Os media também contribuem para a formação da opinião pública, pois dizem às pessoas o que pensar. Assim, a opinião pública acaba por ser determinada por aqueles que têm acesso e controlo aos meios de comunicação. 
Pedro Dias, natural de Arouca, tornou-se o homem mais procurado de Portugal, desde o dia 11 de outubro de 2016. Suspeito de ter alvejado um GNR, em Aguiar da Beira, e, ainda, ter atacado um casal, Pedro Dias colocou-se em fuga, durante 28 dias. A 17 de outubro, terá sido noticiado que o suspeito atacara duas pessoas em Arouca, numa casa abandonada, onde terá estado escondido. Os holofotes da comunicação começam a virar-se para a terra de onde é natural Pedro Dias. No dia 8 de novembro de 2016, aquele que era conhecido pelos media como "o fugitivo de Arouca" entrega-se numa emissão informativa em direto pela RTP. O homem estava em casa de uma amiga da família, em Arouca, e chegou a dar uma entrevista exclusiva ao canal público, em que negou qualquer culpabilidade nos casos de que era acusado. Durante estes 28 dias, a comunicação social portuguesa não cessou de mencionar este caso. Na televisão, na rádio e na imprensa nacionais não houve um único dia em que Pedro Dias não fosse tema. Também nos dias depois da sua entrega, o assunto continuava a ser falado. E se foi esquecido por breves semanas, em janeiro de 2017, os media ainda se servem de Pedro Dias e da sua então prisão para se atualizarem. 
Apesar de todo o protagonismo na comunicação nacional, Pedro Dias foi apenas figurante na imprensa de Arouca. A comunicação social da vila - de que fazem parte dois jornais (um mensal e outro semanal), ambos com versões online mais frequentemente atualizadas - manteve-se frequentemente em silêncio sobre o caso. A primeira vez que menciona o nome Pedro Dias é a 17 de outubro. Durante todos os outros dias de fuga e até à sua entrega, não volta a mencioná-lo. E sempre que o faz, nunca vai além de meia dúzia de frases, ou 1/6 de página de jornal (em que mais de metade é ocupada por uma fotografia). 
Em toda esta situação, podem verificar-se dois casos paralelos de Espiral do Silêncio. Primeiro, a imprensa local cala-se perante a imprensa nacional. Sendo que a imprensa nacional assume que Pedro Dias é culpado dos crimes pelos quais está acusado e a imprensa local, no pouco que escreve sobre o caso, concentra-se nas operações das forças policias e na narração de factos como as datas em que Pedro Dias fugiu, esteve em Arouca, se entregou, foi detido ou trocou de prisão. Aqui a imprensa local pode ser considerada a maioria silenciosa. Num meio relativamente pequeno, em que quase toda a gente se conhece e em que todos conheciam Pedro Dias ou conheciam quem conhecesse Pedro Dias, o silenciamento toma conta do caso. E o embaraço também, já que é um fator comum de situações constrangedoras, como é o caso desta. O segundo caso de Espiral do Silêncio está relacionado com as pessoas da vila de Arouca que "não estavam do lado" de Pedro Dias. Sendo que os Arouquenses, quando falavam à comunicação social nacional, descreviam Pedro Dias como uma pessoa de bem e mostravam-se desacreditados na sua culpabilidade. Aqui houve o silenciamento das pessoas que não acreditavam na inocência de Pedro Dias, também influenciado pelos media locais. A opinião pública, aquela que era maioritária, defendia a inocência de Pedro Dias. Quem não pensava da mesma forma, pelo medo da rejeição, acabava por se silenciar.
Elisabeth Noelle afirmava que só as questões controversas poderiam dar origem à Espiral do Silêncio, e alertava também para a influência dos media neste processo. Assim sendo, e pelos silenciamentos paralelos atrás referidos, é possível afirmar a existência da Espiral no Silêncio na imprensa local de Arouca no caso Pedro Dias.
Cátia Cardoso
 2ºano da licenciatura em Comunicação Social
Escola Superior de Educação de Coimbra

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Exposição - 25 anos, 25 testemunhos da Biblioteca Municipal de Arouca

[Exposição Documental "25 anos, 25 testemunhos da Biblioteca Municipal de Arouca" (de 8 de dezembro a 6 de janeiro, Biblioteca Municipal de Arouca)]

Há espaços que nos acolhem desinteressadamente e que se tornam inevitavelmente especiais para nós. Fui, desde a primeira vez que a visitei - e já lá vai tempo que não sei percecionar - acolhida pela Biblioteca Municipal de Arouca. Pela sua imensidão de palavras e livros, pela sua agradável varanda - onde as tardes passavam ao som de tertúlias diversas -, pelas salas de estudo, por cada pedaço de história desta construção. Sem nunca esquecer as pessoas que a frequentam e administram, a simpatia e o sorriso daqueles que não escondem gostar do que fazem. 
Assim, fez e continua a fazer, para mim, todo o sentido do mundo, apresentar as minhas palavras nesta Biblioteca. Em 2014, o meu primeiro livro - "Poesia Silenciosa" - foi lançado neste espaço. Sendo a poesia algo tão peculiar, merece ser partilhada num espaço onde a dedicação à mesma seja evidente. Assim foi. E quando, em 2016, houve um novo livro para apresentar - desta vez em prosa e de título "Linhas Delicadas" - sempre disse que, independentemente das apresentações que fizesse do mesmo, a primeira seria aqui. Não só por ser aqui que começou o meu gosto por devorar centenas de páginas por semana, ou por ficar com saudades quando aqui não vinha durante vários dias. Mas por ter a certeza que aqui, tanto eu como o meu livro, seríamos bem tratados - não havia nem há essa certeza em todo o lado! - por ter a certeza que, mais uma vez, iriam acolher com agrado e dedicação uma obra minha. Queremos o melhor para os nossos e eu quero o melhor para os meus livros. E sei que o melhor para eles é serem lançados nesta Biblioteca. Em ambas as apresentações lhe fiquei grata. E continuo. Porque ambas as apresentações foram preparadas com empenho e praticamente sem qualquer preocupação da minha parte. 
Tanto enquanto leitora como enquanto autora, posso afirmar sempre me senti acolhida pela Biblioteca Municipal de Arouca. E é, também por isso, que a felicito, com toda a satisfação, pelos seus 25 anos de serviço público. É um orgulho poder, de alguma forma, participar nas comemorações das bodas de prata deste que continua a ser um dos meus espaços preferidos da vila de Arouca. Que esta Biblioteca continue a prestar serviço público com a mesma dedicação que lhe conheço e que os seus leitores, colaboradores e artistas que a procuram se continuem a sentir albergados e estimados neste belíssimo espaço. Um bem haja à Biblioteca Municipal de Arouca!
Cátia Cardoso |Utilizadora e Escritora

domingo, 1 de janeiro de 2017

Janeiro e Crianças

Janeiro é o início do ano e as crianças são o início da vida. Creio ser legitima tal afirmação. Crianças. A faixa etária do ser humano que uns repugnam e outros idolatram. O que têm estes seres que os distingue? A maioria dos adultos tem algo que a distingue das crianças: não se lembrar de como é ser criança. Cresce o ser humano e apaga-se-lhe de imediato a memória dos tempos em que a inocência era a sua maior caraterística. 
Talvez seja ilógico que alguém que saiu há tão pouco tempo da adolescência venha agora falar da infância como se de uma pessoa de idade média se tratasse. Ou talvez só o faça por ainda ter presente grande parte das recordações destes tempos de início de vida. (Assim se espera que o tenha sido: início de vida.) Os adultos esquecem-se de que já foram crianças. Mas, como pessoas mesquinhas que são - que somos, peço desculpa - só se esquecem para o que lhes é vantajoso. Para apanhar uma mentira, para percecionar uma criança que se prepara para fazer, ou que já fez, uma traquinice, para, enfim, se vangloriar, dizendo "Eu também já tive a tua idade...". Posto isto, quantos adultos se lembram de como se sentiam com castigos, repreensões, posturas e palavras com que eram confrontados nos seus tempos mais precoces? Quantos adultos, ao repreender - ou chamemos-lhe educar(?) - uma criança é que se colocam no lugar da mesma para tentarem perceber como é que ela se sentirá? Que se acusem todos, porque, até hoje, cruzei-me com não mais que meia dúzia deles.
Saramago - esse grande indivíduo - dizia que as crianças estavam sempre a nascer, porém, nasciam "de cada tristeza sofrida em silêncio, de cada desgosto padecido, de cada frustração imerecida" e alertava - e bem! - para o cuidado que se deve ter com uma criança. Talvez seja injusta a comparação, mas é frequente que se tenha mais cuidado com um idoso do que com uma criança e isso, sim, sem talvez mas com toda a certeza, é injusto. Há que ter cuidado, mesmo muito cuidado, com as crianças. Há que as educar - que é o que menos se faz com elas, hoje em dia - há que as saber cuidar e, acima de tudo, compreende-las sem que tenham de ser elas a falar. 
Já todos fomos crianças. Se nos afundarmos por breves minutos na memória vamos entender que também tivemos as nossas tristezas sofridas em silêncio, os nossos desgostos padecidos e as nossas frustrações imerecidas. Não contribuamos para que outras crianças passem por isso também. E é-vos isto dito por alguém que, saibam, não é, de todo, amante da infância nem das crianças - pela forma como estas são iludidas pelos adultos e pela falta de educação que estas têm, embora a culpa não seja delas, mas sim dos seus educadores. É-vos isto dito por alguém que estima as crianças enquanto faixa etária e enquanto seres humanos - embora saiba que seres humanos há bons e menos bons. É-vos isto dito por alguém que já foi criança e não esquece isso - nem vai esquecer, certamente, que de falta de memória nunca padeceu. É-vos isto dito, note-se, por alguém implora a atenção da humanidade para as crianças. Uma atenção que preze pelos valores, educação e sentimentos delas. Uma atenção que as cuide, como se rega uma flor que acabou de nascer. Afinal, elas são o início (da vida), e se o início não for bom, é seguro dizer que, sem bases, nada (de bom) se construirá.