terça-feira, 30 de maio de 2017

Vem Amanhã

Vem amanhã 
Abrir a luz no meu quarto 
Beijar-me o corpo 
Como quem morre de fome.
Acordar o meu mau humor 
Repreender o meu mau feitio.

Vem amanhã 
Mostrar-me o teu sorriso 
Fazer-me recordar o teu abraço 
Apertado, repleto de amor...
E lembrar-me-ei do amor 
O que é, quem és. 

Vem amanhã 
Que morro já de vontade 
De ti, meu amor.
Amanhã, que não aguento 
Nem mais um dia!
E quem me dera que amanhã fosse já hoje. 

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Somos parvos por termos medo de morrer

Somos parvos por termos medo de morrer. Devíamos era ter medo de viver, porque a vida é que nos trama e nos coloca em situações limite. No fundo, a morte é apenas a salvação, o fim da dor, do medo e do fracasso. Somos parvos por termos medo de morrer, quando a vida é que é tão assustadora e ímpia. A incerteza do amanhã é que devia intimidar-nos. Se, ao menos, morressemos, tudo estaria resolvido e nada havia a temer. Mas, se continuarmos vivos, podemos ter de enfrentar os mais desgastantes momentos e as mais fortes mágoas. Enquanto estivermos vivos, os problemas permancerão. Enquanto vivermos, a dor acompanhar-nos-á. Será que os momentos de alegria valem o medo da morte quando postos ao lado dos momentos de dor e sofrimento? Será que o medo que temos é o de morrer ou o de morrer sem termos sido felizes? Andamos uma vida inteira à procura da felicidade. E, cada vez mais insatisfeitos, queremos que a morte nos vá alargando o prazo de procura.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

O dia mais agridoce da minha vida

Houve um dia em que vi Coimbra de cima de um camião 
Houve um dia em que, trajada (porque me fazes bonita assim)
Te vi, Coimbra, em festa. 
E juro-te que foi o dia mais agridoce da minha vida. 
Subi ao carro e vi o início e o fim, em união 
Chama-se auge, acredito. 
E vi-te como a razão dos nossos sorrisos,
Das nossas amizades e... dos nossos amores. 
Ah, Coimbra! 
Sangro quando escrevo o teu nome.
Lamento pelos que só veêm em ti a boémia
E não percecionam a emoção que és. 
És tão mais que poesia que já desisti de tentar cantar-te. 
Mas, houve um dia, em que te vi
Seres o tudo e o nada 
Seres a alegria e a saudade 
Seres o início e o fim. 
Como és possível? 
Eu subi ao carro para te ver
Eu subi ao carro para te sentir
Para sentir a tua história, o peso da tua tradição 
Para saber e sentir que sou estudante de Coimbra 
Que faço parte de ti. 
E não imaginas como entram em erupção 
As minhas emoções quando canto 
"Coimbra é nossa e há-de ser até morrer"
Porque é mesmo isso. É mesmo assim. 
Até morrer, eu juro-te, haverá parte de mim
Que sangrará sempre que se fale no teu nome,
Coimbra. 

terça-feira, 2 de maio de 2017

Finais

O início começa agora. O início do fim. Nascemos a ouvir que nada dura para sempre e, ainda assim, conseguimos espantar-nos com finais. De hoje a pouco tempo, restarão apenas as memórias e a ... saudade. Essa é já tida como certa. E da dor da saudade e da memória mais nada restará. Viveu-se o que se viveu e outro tanto há-de ter ficado por viver. O tempo é soberano e não dá tréguas. Haverá um dia em que subiremos uns degraus de madeira, veremos os outros em baixo, e, lá em cima, havemos de sentir que tudo valeu a pena. Lá em cima, prestes a iniciar a viagem (do fim), havemos de perceber como fomos felizes e como tudo ficará, para sempre, guardado em nós, fazendo-se exatamente parte de nós. Ou não fosse tudo isto, o auge. 

sexta-feira, 7 de abril de 2017

(...) Mas eu quero ser jornalista.

Foi cedo que falei em comunicação social, mas não foi tão cedo assim que falei em jornalismo. A comunicação social não se resume ao jornalismo, mas a verdade é que o jornalismo é um pedaço muito peculiar da comunicação social. Pensar verdadeiramente em jornalismo talvez tenha acontecido apenas quando chegou o momento de preencher a candidatura de acesso ao ensino superior. É, no entanto, possível que esse pensamento tenha sido fruto daquilo que os outros percecionavam quando eu falava de comunicação social. O meu percurso ficou assim marcado pela minha feliz entrada num curso chamado de comunicação social. Em setembro, toda eu queria estudar jornalismo, mesmo sabendo que a licenciatura em que me encontrava se dividiria no segundo ano em dois ramos e só um estava ligado ao jornalismo. Ignorei integralmente o outro ramo, que dizia respeito à criação de conteúdos. Editar, mexer em computadores e naqueles programas esquisitos não seria, de todo, aquilo que eu almejaria para mim. Durante todo o primeiro semestre do meu primeiro ano, quis seguir o ramo 1: jornalismo e informação. Porém, eis que chega o segundo semestre e traz consigo as cadeiras mais ligados ao jornalismo mas também à produção audiovisual. 
Enquanto que a produção audiovisual incrivelmente me apaixonava cada vez mais, a área jornalística frustrava-me cada vez mais. A certa altura, vi-me gritar aos outros e repetir para mim mesma "eu não quero ser jornalista". Apesar de os trabalhos finais de todas as cadeiras me terem agradado, quando chegou a altura de decidir o ramo, escolhi o segundo: criação de conteúdos para novos media. Foi uma decisão muito pensada e debatida. Já não afirmava com toda a certeza que não queria ser jornalista, já não odiava o jornalismo, apenas estava demasiado fascinada pela sétima arte, pela realização e produção audiovisual. Não me arrependo. Já aprendi coisas que seria impossível aprender fora da licenciatura. E se quero ser jornalista? Acho que nunca quis tanto. Porque, na verdade, agora tenho umas luzes do que realmente é o jornalismo. Sim, frustra muito. É desesperante! No entanto, é exatamente por tudo isso que é fascinante. Enquanto que o resto me apaixona, o jornalismo seduz-me, fascina-me. É impossível de se desvendar todos os detalhes jornalísticos. E é claro que eu quero desvendar tantos quantos conseguir, e é claro que eu quero ser jornalista. Hoje, mais do que nunca, porque efetivamente agora sei, o jornalismo não é só uma profissão, não é só uma forma de se fazer alguma coisa da vida. 
O jornalismo é, como já muitos disseram, uma profissão nobre. E não se pense que os aspirantes a jornalistas não sabem de como está triste e de como é desprezada a profissão. Hoje, é o dia do jornalista e eu sinto vontade de chorar. Porque eu quero ser jornalista, mas eu recuso-me - porque tenho princípios - a praticar um jornalismo sujo. Eu quero ser jornalista, mas eu quero obedecer ao direito e à deontologia da comunicação. Eu quero ser jornalista, entre tantas outras coisas que quero ser, porque ainda que não esteja disposta a dar a vida toda ao jornalismo, estou disposta a dar-lhe por inteiro o pedaço que der. Eu quero ser jornalista, porque me preocupo com a sociedade, porque quero fazer alguma coisa pelos outros, porque quero denunciar abusos e divulgar o que deve ser conhecido. Eu quero ser jornalista porque quero provar a mim mesma e aos outros que o jornalismo só é jornalixo quando nele trabalham as pessoas erradas ou se regem os princípios errados. Eu quero ser jornalista porque eu acredito no jornalismo como uma prática ilustre, quando corretamente praticado. Eu quero ser jornalista também porque sou masoquista e tenho um q.b de altruísmo, e também porque quero ter coragem. Porque, digo-vos, não acredito que os jornalistas não tenham um q.b de masoquismo, altruísmo e coragem. Eu quero ser jornalista porque o jornalismo é fascinante e me prendeu desta forma agridoce e misteriosa que me impede de me desprender. E mesmo com todos os "mas" e com toda a pena da sociedade - porque juro que ela existe - eu quero ser jornalista. Quero ser jornalista, mesmo exposta a todas as críticas e esconjuros em praça pública. Afinal de contas, se eu tenho coragem para dizer publicamente que quero ser jornalista, ai de mim que não tenha coragem de ser jornalista! 

Aqui, fica o desabafo, o conjunto de pensamentos de uma eventual aspirante a jornalista. Aspiro jornalismo com cuidado, dada a sua peculiaridade. Tenho sempre presente que esta não é uma profissão qualquer. O nome do artigo era para ser "Eu quero ser jornalista, mas...", mas afinal não há "mas" que me faça não querer ser jornalista, há sim o que não me faça querer ser jornalista repleto de "mas". Eu não vou começar a frase com "eu quero ser jornalista, mas...", eu vou acabar a frase enumerando todos os motivos pelos quais eu poderia não querer ser jornalista, dizendo "...mas eu quero ser jornalista!".

sábado, 18 de março de 2017

O mundo onde quero ser

Este não é o mundo onde quero ser. É o mundo de onde quero fugir. Este não é o mundo que eu vi, no futuro, à minha espera. Não é o mundo das histórias que me contaram e leram. Não é o mundo que me prometeram. Agora percebo quando diziam que o bom da vida é não saber o que ela é. Este mundo, este espaço de sôfregos e âmagos, este espaço de desespero e dor, de pranto e angústia, em nada se assemelha com aquilo de que sempre me falaram ao referirem-se a isto. Se isto é a realidade nua e crua tragam-ma vestida e cozida, por favor. Assim, dispenso-a. 
Dá-me a tua mão. És tu ou todas as minhas inseguranças. És tu ou todo o meu mundo repugnante. És tu. O escape único de um mundo que não é o mundo onde quero ser. Conforto é uma palavra cara e díficil de encontrar. Dá-me o teu abraço. Prende-me no teu abraço. Os teus braços são a única armadura que me faz sentir forte e capaz de enfrentar o resto. O teu abraço é conforto, é segurança, é calma e felicidade. Não há mais nada assim para mim. Não há mais nada que me seja precisa, por agora. Dá-me a tua mão e vem escutar comigo as baladas que nos ensinaram a amar. Dá-me a tua mão e despede-te de receios. Se me deres a tua mão, prometo mostrar-te um mundo que é o mundo onde quero ser. 
Quero ser num mundo de racionalidade, repleto de falhas e surpresas. Quero ser onde possa ser o meu ser com os meus defeitos que me esforçarei por amenizar e com as minhas qualidades que farei por manter. Quero ser onde, de uma forma ou de outra, tudo tenha solução. Quero ser a poesia acesa de uma vida desejada, quero ser o fado da saudade, as palavras da sinceridade. Quero ser o corpo do pecado, cometido a dois. Quero ser num mundo imperfeito, mas racional, isento de utopias, mas vivido. Então, dá-me a tua mão, e leva-me no teu abraço numa viagem pelo mundo onde quero ser. Prometo não fugir.  

sexta-feira, 10 de março de 2017

Abastança de Identidades

O que é isso de crise de identidade? Nada para mim. Nunca me vi isenta de uma identidade. Na verdade, sempre senti que as tinha em demasia. Não se pense, pois, que ter uma abastança de identidades é melhor que uma crise. Ter uma abastança de identidades é querer ser tudo e saber que desse tudo apenas se pode ser um. De todas as identidades que vemos como nossas e que sentimos em nós, apenas podemos abraçar uma. Numa crise de identidade, não sabemos quem somos e isso pode levantar tristeza e até frustração. Porém, numa abastança de identidades existe a tristeza e a frustração de sabermos quem somos e de sabermos que não podemos ser tudo o que somos. Se numa existe a dúvida, o desespero, a ânsia de se querer saber quem se é, na outra existe a revolta e a insatisfação por não se poder ser tudo o que se é. As crises de identidade tendem a passar quando as pessoas se resolvem e encontram finalmente aquilo que são. A abastança de identidade nunca passa, é algo que nos acompanha sempre ao longo de toda a vida, porque nuns momentos somos uma parte daquilo que somos e noutros momentos somos outra parte, porém, há sempre algo que nos impede de sermos sempre tudo aquilo que realmente somos. É grave viver numa abundância de identidades. É grave e penoso. Aqui, não há caminhos para encontrar, há caminhos para eliminar. E para ganhar estamos sempre preparados, porém, para perder não há forma de apaziguar a tristeza de ver ir aquilo que tanto queríamos ver ficar. Numa abastança de sonhos, é fácil. Sabemos que temos de nos desfazermos de uns, para podermos fazer outros. É um desaponto que cai no esquecimento com o passar do tempo, ou que nos acompanha a vida toda, mas, pelo menos, acompanha sempre a mesma identidade. Numa abastança de identidades, nunca vamos saber como será o nosso futuro, sabemos como gostaríamos que fosse, sabemos tão bem quem somos!, e sabemos simultaneamente que não podemos ser tudo o que somos. E o pior de tudo é que, no fundo, a frustração de não se saber que parte de nós escolher para ser, a desilusão de não se poder ser por inteiro, é bem capaz de nos poder enviar para uma crise de identidade.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Falar de saudade sem escrever saudade

A cidade está deserta
Sem ti. 
As ruas vivem desamadas 
Sem ti. 
E eu, oh, eu!, não sou 
Se não metade de mim
Se não metade do meu amor 
Sem ti. 
Preciso-te 
Em cada dia
E sinto-te a ausência 
Em cada noite. 
Ainda ouço, acredita 
A tua voz a sussurrar no meu ouvido 
As letras das baladas que ouvimos juntos 
Junto ao Mondego... 
De capa traçada, 
Privilégios de estudante;
E de dedos entrelaçados,
Privilégios do amor. 
Ouço a tua voz 
Em cada balada que agora escuto 
Na dor da ausência de ti. 
A cidade está deserta
Sem ti. 
E eu ainda grito em silêncio 
O teu nome.
A magia apagou-se 
A tradição parece perder-se 
Em cada metro de calçada 
Se tu não vives cá 
Eu vivo sem ti 
Sem magia e sem tradição. 
Eu vivo
Eu sobrevivo
Sem ti.
Sem ti 
Estou como a cidade deserta.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

À Dona Irene, qualquer que seja o seu nome.

Era sexta-feira, o dia de lhe irem limpar a casa. Como não gostava de ver os outros limpar, a Dona Irene decidiu apanhar um comboio e ir lanchar a Coimbra. Eram cerca de duas horas de viagem, desde Valadares. Mas o que são duas horas na vida de uma mulher que é sozinha? Há quinze dias atrás, fora com uma amiga, hoje, a amiga não pudera, então, foi assim mesmo, sozinha. Estamos em finais de fevereiro e os primeiros raios de sol já acompanham o dia-a-dia. Ficar em casa num dia assim é pecado. 
Foi lanchar a Coimbra, a Dona Irene. E, na viagem de regresso, sentaram-se no banco à sua frente dois estudantes. Eram namorados. Trocavam beijos e mimos durante a viagem. Ele ia sair em Aveiro, ela um pouco mais à frente. Trocavam os beijos da despedida quando, antes de ele sair, a Dona Irene confessa: "Eu só tenho pena de não ter aqui um papel e uma caneta para fazer um risquinho por cada beijo que vocês já trocaram" O jovem casal sorri e Dona Irene acrescenta: "Não me levem a mal, eu gosto muito de ver o amor." O casal volta a sorrir e ele sai despedindo-se dela. 
Ela, a jovem, uma amante incondicional de viagens de comboio e da oportunidade de conhecer pessoas e de comunicar, de trocar palavras inéditas com pessoas nunca antes vistas e com quem não havia certeza de se voltar a encontrar. A Dona Irene continuou o seu discurso, a contar como gostava de ver o amor no mundo. A jovem concordava com a senhora que lhe era tão simpática. E conversava com ela, amigavelmente. A Dona Irene contou-lhe que era sozinha, que o marido morrera um mês antes de fazerem cinquenta anos de casados. Na cama do hospital, olhou-a e disse-lhe "amo-te", ela respondeu "Eu também te amo, mas não te consigo salvar", ele fechou os olhos, ela perdeu-o. Cinco anos depois, perdeu o único filho que teve. A nora não lhe fala, o neto, é um jovem nem-nem de 27 anos que pouco lhe liga. Tem uma sobrinha a estudar economia e uma irmã com quem mantém contacto suficiente para falar delas com carinho. 
Mas a Dona Irene continua a viver. 80 anos de viagens, de passeios e lanches em cidades diversas, de conversas com desconhecidos, de saudades. 80 anos, ali, à minha frente. E eu senti-me tão pequenina e feliz por me ter cruzado com esta senhora, que decidi chamar Irene mas, na realidade, nunca chegamos a saber o nome uma da outra. É por isto, é tanto por isto, que amo o mundo e a vida e que sou feliz.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Sou filha do Mundo

Sou filha do mundo e só o mundo me pode dominar. Só o mundo pode enviar-me para um ou outro caminho, só o mundo me pode manter aprisionada numa vida qualquer. Sou filha do mundo, porém, estou isenta de dono e de domínios. O mundo é livre e eu, sendo sua filha, sou-o também. Sou filha do mundo e somente o mundo poder-me-ia julgar. Sou filha do mundo. Vivo de acordo com as ideologias reprovadas pelos outros. Vivo de acordo com os meus (in)constantes devaneios. Percorro destemidamente cada ruela que se abre à minha frente. Vivo de cidade em cidade, a ansiar pelo desconhecido, engrandecem-me as camas onde durmo, as casas que visito e as pessoas que conheço. Engrandece-me o mundo e as suas revelações. Engradece-me o não ser de ninguém e o não possuir ninguém por tempo demasiado. Engrandecem-me os olhares repletos de censura com que sou defrontada. Engrandecem-me os meus antagónicos pensamentos e as minhas impulsivas determinações. Engrandece-me a liberdade de ser do mundo, de não ter pouso certo, de vadiar feliz da vida, de me assumir orgulhosamente como uma depravada sem rumo, uma inócua e cândida personagem que habita tudo o que encontra e não lhe pertence. Engrandece-me a entrega que proporciono à boémia. Sinto-me humildemente grande, pela entrega que asseguro ao que me defronta. Nenhum outro modo de vida me completaria. Não há copo que me vicie, nem droga que me controle. Não há palco que me refreie nem homem que me dome. Não há óbice que me induza ao vacilo. O meu corpo é uma eterna chama acesa que nenhum pedaço de água se atreve a afagar. A minha mente é uma desobstruída peça, idónea de sobrepujar as mais degradantes peripécias. Vivo encantada com a minha capacidade de livre arbítrio, engolida pelos meus sonhos estrambólicos. Busco definições do que é indefinido, e procuro o possível do que todos consideram impossível. Usufruo de ilimitada liberdade e respiro com vivacidade. Não temo a morte, nem detenho receios concretos. Sou filha do mundo e só o mundo decreta o meu destino. Sou filha do mundo e somente o mundo poderá apoderar-se de mim. Sou filha do mundo e, por isso, vivo sem amarras, sem se's e mas's. Sou filha do mundo e, por isso, não sou de ninguém. Sou filha do mundo e estou ao alcance de todos os meus impulsos e vontades momentâneas. Sou filha do mundo e o mundo é a minha casa. Confio no mundo e nos seus outros habitantes, confio na vida e nos sorrisos com que me cruzo, confio na bondade humana e nos afetos do momento. Confio no mundo, afinal, sou sua filha. Sou filha do mundo e, por isso, sou livre e tenho todo o tempo do mundo para viver. Sou filha do mundo. Ou talvez seja apenas jovem.


terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Espiral do Silêncio no caso Pedro Dias (Imprensa local - Arouca)

Este trabalho surge no âmbito da unidade curricular de Sociologia dos Media, e tem como objetivo analisar um dos casos mais recentemente falados e abordados pela comunicação social portuguesa - o caso Pedro Dias- no contexto de imprensa local - Arouca, de onde Pedro Dias é natural - e relacioná-lo com a teoria da Espiral do Silêncio. A pertinência da relação entre estes dois polos tem que ver com o facto da imprensa local e o jornalismo de proximidade serem pouco abordados nas licenciaturas de jornalismo e comunicação, quando a sua importância não deve ser esquecida, aliás, este é considerado, por alguns autores, "um jornalismo do futuro". Porém, em situações mais controversas, este jornalismo de proximidade pode causar embaraço. Terá sido este fator que terá levado à Espiral do Silêncio na imprensa Arouquense.
A teoria da Espiral do Silêncio, proposta por Elisabeth Noelle, defende que as pessoas que têm uma opinião minoritária tendem a silenciar-se, isto devido ao medo da reprovação por parte da maioria. Nesta teoria é importante, também, ter-se uma noção do que é a opinião pública. Embora não exista uma definição concreta de opinião pública, pode dizer-se que esta consiste na opinião maioritária ou que é a conclusão de todas as opiniões. Os media também contribuem para a formação da opinião pública, pois dizem às pessoas o que pensar. Assim, a opinião pública acaba por ser determinada por aqueles que têm acesso e controlo aos meios de comunicação. 
Pedro Dias, natural de Arouca, tornou-se o homem mais procurado de Portugal, desde o dia 11 de outubro de 2016. Suspeito de ter alvejado um GNR, em Aguiar da Beira, e, ainda, ter atacado um casal, Pedro Dias colocou-se em fuga, durante 28 dias. A 17 de outubro, terá sido noticiado que o suspeito atacara duas pessoas em Arouca, numa casa abandonada, onde terá estado escondido. Os holofotes da comunicação começam a virar-se para a terra de onde é natural Pedro Dias. No dia 8 de novembro de 2016, aquele que era conhecido pelos media como "o fugitivo de Arouca" entrega-se numa emissão informativa em direto pela RTP. O homem estava em casa de uma amiga da família, em Arouca, e chegou a dar uma entrevista exclusiva ao canal público, em que negou qualquer culpabilidade nos casos de que era acusado. Durante estes 28 dias, a comunicação social portuguesa não cessou de mencionar este caso. Na televisão, na rádio e na imprensa nacionais não houve um único dia em que Pedro Dias não fosse tema. Também nos dias depois da sua entrega, o assunto continuava a ser falado. E se foi esquecido por breves semanas, em janeiro de 2017, os media ainda se servem de Pedro Dias e da sua então prisão para se atualizarem. 
Apesar de todo o protagonismo na comunicação nacional, Pedro Dias foi apenas figurante na imprensa de Arouca. A comunicação social da vila - de que fazem parte dois jornais (um mensal e outro semanal), ambos com versões online mais frequentemente atualizadas - manteve-se frequentemente em silêncio sobre o caso. A primeira vez que menciona o nome Pedro Dias é a 17 de outubro. Durante todos os outros dias de fuga e até à sua entrega, não volta a mencioná-lo. E sempre que o faz, nunca vai além de meia dúzia de frases, ou 1/6 de página de jornal (em que mais de metade é ocupada por uma fotografia). 
Em toda esta situação, podem verificar-se dois casos paralelos de Espiral do Silêncio. Primeiro, a imprensa local cala-se perante a imprensa nacional. Sendo que a imprensa nacional assume que Pedro Dias é culpado dos crimes pelos quais está acusado e a imprensa local, no pouco que escreve sobre o caso, concentra-se nas operações das forças policias e na narração de factos como as datas em que Pedro Dias fugiu, esteve em Arouca, se entregou, foi detido ou trocou de prisão. Aqui a imprensa local pode ser considerada a maioria silenciosa. Num meio relativamente pequeno, em que quase toda a gente se conhece e em que todos conheciam Pedro Dias ou conheciam quem conhecesse Pedro Dias, o silenciamento toma conta do caso. E o embaraço também, já que é um fator comum de situações constrangedoras, como é o caso desta. O segundo caso de Espiral do Silêncio está relacionado com as pessoas da vila de Arouca que "não estavam do lado" de Pedro Dias. Sendo que os Arouquenses, quando falavam à comunicação social nacional, descreviam Pedro Dias como uma pessoa de bem e mostravam-se desacreditados na sua culpabilidade. Aqui houve o silenciamento das pessoas que não acreditavam na inocência de Pedro Dias, também influenciado pelos media locais. A opinião pública, aquela que era maioritária, defendia a inocência de Pedro Dias. Quem não pensava da mesma forma, pelo medo da rejeição, acabava por se silenciar.
Elisabeth Noelle afirmava que só as questões controversas poderiam dar origem à Espiral do Silêncio, e alertava também para a influência dos media neste processo. Assim sendo, e pelos silenciamentos paralelos atrás referidos, é possível afirmar a existência da Espiral no Silêncio na imprensa local de Arouca no caso Pedro Dias.
Cátia Cardoso
 2ºano da licenciatura em Comunicação Social
Escola Superior de Educação de Coimbra

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Exposição - 25 anos, 25 testemunhos da Biblioteca Municipal de Arouca

[Exposição Documental "25 anos, 25 testemunhos da Biblioteca Municipal de Arouca" (de 8 de dezembro a 6 de janeiro, Biblioteca Municipal de Arouca)]

Há espaços que nos acolhem desinteressadamente e que se tornam inevitavelmente especiais para nós. Fui, desde a primeira vez que a visitei - e já lá vai tempo que não sei percecionar - acolhida pela Biblioteca Municipal de Arouca. Pela sua imensidão de palavras e livros, pela sua agradável varanda - onde as tardes passavam ao som de tertúlias diversas -, pelas salas de estudo, por cada pedaço de história desta construção. Sem nunca esquecer as pessoas que a frequentam e administram, a simpatia e o sorriso daqueles que não escondem gostar do que fazem. 
Assim, fez e continua a fazer, para mim, todo o sentido do mundo, apresentar as minhas palavras nesta Biblioteca. Em 2014, o meu primeiro livro - "Poesia Silenciosa" - foi lançado neste espaço. Sendo a poesia algo tão peculiar, merece ser partilhada num espaço onde a dedicação à mesma seja evidente. Assim foi. E quando, em 2016, houve um novo livro para apresentar - desta vez em prosa e de título "Linhas Delicadas" - sempre disse que, independentemente das apresentações que fizesse do mesmo, a primeira seria aqui. Não só por ser aqui que começou o meu gosto por devorar centenas de páginas por semana, ou por ficar com saudades quando aqui não vinha durante vários dias. Mas por ter a certeza que aqui, tanto eu como o meu livro, seríamos bem tratados - não havia nem há essa certeza em todo o lado! - por ter a certeza que, mais uma vez, iriam acolher com agrado e dedicação uma obra minha. Queremos o melhor para os nossos e eu quero o melhor para os meus livros. E sei que o melhor para eles é serem lançados nesta Biblioteca. Em ambas as apresentações lhe fiquei grata. E continuo. Porque ambas as apresentações foram preparadas com empenho e praticamente sem qualquer preocupação da minha parte. 
Tanto enquanto leitora como enquanto autora, posso afirmar sempre me senti acolhida pela Biblioteca Municipal de Arouca. E é, também por isso, que a felicito, com toda a satisfação, pelos seus 25 anos de serviço público. É um orgulho poder, de alguma forma, participar nas comemorações das bodas de prata deste que continua a ser um dos meus espaços preferidos da vila de Arouca. Que esta Biblioteca continue a prestar serviço público com a mesma dedicação que lhe conheço e que os seus leitores, colaboradores e artistas que a procuram se continuem a sentir albergados e estimados neste belíssimo espaço. Um bem haja à Biblioteca Municipal de Arouca!
Cátia Cardoso |Utilizadora e Escritora

domingo, 1 de janeiro de 2017

Janeiro e Crianças

Janeiro é o início do ano e as crianças são o início da vida. Creio ser legitima tal afirmação. Crianças. A faixa etária do ser humano que uns repugnam e outros idolatram. O que têm estes seres que os distingue? A maioria dos adultos tem algo que a distingue das crianças: não se lembrar de como é ser criança. Cresce o ser humano e apaga-se-lhe de imediato a memória dos tempos em que a inocência era a sua maior caraterística. 
Talvez seja ilógico que alguém que saiu há tão pouco tempo da adolescência venha agora falar da infância como se de uma pessoa de idade média se tratasse. Ou talvez só o faça por ainda ter presente grande parte das recordações destes tempos de início de vida. (Assim se espera que o tenha sido: início de vida.) Os adultos esquecem-se de que já foram crianças. Mas, como pessoas mesquinhas que são - que somos, peço desculpa - só se esquecem para o que lhes é vantajoso. Para apanhar uma mentira, para percecionar uma criança que se prepara para fazer, ou que já fez, uma traquinice, para, enfim, se vangloriar, dizendo "Eu também já tive a tua idade...". Posto isto, quantos adultos se lembram de como se sentiam com castigos, repreensões, posturas e palavras com que eram confrontados nos seus tempos mais precoces? Quantos adultos, ao repreender - ou chamemos-lhe educar(?) - uma criança é que se colocam no lugar da mesma para tentarem perceber como é que ela se sentirá? Que se acusem todos, porque, até hoje, cruzei-me com não mais que meia dúzia deles.
Saramago - esse grande indivíduo - dizia que as crianças estavam sempre a nascer, porém, nasciam "de cada tristeza sofrida em silêncio, de cada desgosto padecido, de cada frustração imerecida" e alertava - e bem! - para o cuidado que se deve ter com uma criança. Talvez seja injusta a comparação, mas é frequente que se tenha mais cuidado com um idoso do que com uma criança e isso, sim, sem talvez mas com toda a certeza, é injusto. Há que ter cuidado, mesmo muito cuidado, com as crianças. Há que as educar - que é o que menos se faz com elas, hoje em dia - há que as saber cuidar e, acima de tudo, compreende-las sem que tenham de ser elas a falar. 
Já todos fomos crianças. Se nos afundarmos por breves minutos na memória vamos entender que também tivemos as nossas tristezas sofridas em silêncio, os nossos desgostos padecidos e as nossas frustrações imerecidas. Não contribuamos para que outras crianças passem por isso também. E é-vos isto dito por alguém que, saibam, não é, de todo, amante da infância nem das crianças - pela forma como estas são iludidas pelos adultos e pela falta de educação que estas têm, embora a culpa não seja delas, mas sim dos seus educadores. É-vos isto dito por alguém que estima as crianças enquanto faixa etária e enquanto seres humanos - embora saiba que seres humanos há bons e menos bons. É-vos isto dito por alguém que já foi criança e não esquece isso - nem vai esquecer, certamente, que de falta de memória nunca padeceu. É-vos isto dito, note-se, por alguém implora a atenção da humanidade para as crianças. Uma atenção que preze pelos valores, educação e sentimentos delas. Uma atenção que as cuide, como se rega uma flor que acabou de nascer. Afinal, elas são o início (da vida), e se o início não for bom, é seguro dizer que, sem bases, nada (de bom) se construirá.