domingo, 27 de novembro de 2016

O fomento da arte ou o desvalor da mesma?

Anda por aí a vaguear a notícia de que os museus passarão a ser grátis aos domingos e feriados de manhã - com outros pormenores que por aí escreveram e que agora não interessam nada. A gratuitidade dos museus - ainda que apenas nas manhãs dominicais - parece estar a agradar aos leitores dos media portugueses, bem como aos amantes de museus, arte e património.
Fomentar a arte e a cultura deve sempre ser prioridade de qualquer governo - não tem sido - porém, mais do que qualquer outra área, a cultura deve ser valorizada - também não tem sido como deve ser - e esta medida, embora possa promover a cultura também pode ser apontada como uma desvalorização à mesma. Oxalá não seja, mas a verdade é que ninguém preza da mesma forma uma coisa que lhe foi oferecida gratuitamente e uma coisa que exigiu de si algum - ainda que simbólico - esforço (financeiro). 
E é mais que óbvio que o governo deve facilitar o acesso à arte e os museus são verdadeiros cofres de arte. Porém, que se tenha sempre em consciência o valor que pode aqui estar a ser colocado em causa. 
Na sociedade portuguesa é cada vez mais típica a preguiça em pagar para aceder à arte, as mentalidades nacionais continuam a pensar que os artistas não devem ser pagos, porque ser artista não é profissão nenhuma, porque isto e aquilo. É preguiça, é mesmo preguiça. Por que razão deve a arte ser gratuita? A resposta é simples: porque é desvalorizada. Somente quem entende o valor artístico pode compreender o quão justificável é que esse mesmo seja recompensado. 
Quem gosta de comida, paga para ir a um bom restaurante, tal como quem gosta de moda, paga para adquirir as roupas e acessórios, e quem gosta de futebol, paga para assistir aos jogos; e ninguém se importa, ninguém se queixa. Porque gostam, porque veem os gastos como um investimento - uma despesa que nos traz felicidade chama-se investimento. Então, invistam na arte, se a apreciarem. Só não exijam gratuidade neste campo, quando não a exigem noutros, independentemente de se estar aqui a falar de algo diretamente relacionado com o Estado. 
Têm grande lógica os descontos - para estudantes, desempregados e reformados - mas o carater gratuito revela aqui uma pincelada de desprezo e isso não pode ficar silenciado. 
Ainda assim, que tais palavras aqui escritas o tenham sido erradamente para que a desvalorização mencionada não exista. Acima de tudo, aprovem-se as medidas que se aprovarem, que se preze sempre aquilo que de mais especial um país pode ter: a arte. E com ela, a cultura e o património.

sábado, 26 de novembro de 2016

Quem Quer Ser Arouquense?

Uma vila pacata, longe dos olhares da comunicação social, quase invisível no mapa português e de nome desconhecido para a maior parte do país. Esta era Arouca. Era. Já não é mais. E os motivos da "revolução" são bem diversificados. 
Pode falar-se primeiramente de um clube de futebol que deu os primeiros pontapés nos media por ser treinado pelo apresentador de televisão Jorge Gabriel. Um clube que, alguns anos depois, sem espaço para grandes loucuras e através da competência dos envolvidos, conquistou a primeira liga, e se atreveu, inclusive, a pisar a liderança da mesma (quando venceu o Benfica, em agosto de 2015). Para, três épocas depois, marcar presença na Liga Europa.
Inevitável seria não falar também de uma construção de madeira que acompanha as margens do rio Paiva ao longo de 8kms e que se tornou um fenómeno para todos os curiosos e amantes da natureza. Os Passadiços do Paiva foram um contributo fulcral para colocar "Arouca na Moda", desde os inúmeros artigos publicados nos mais diversos blogues, às infalíveis hashtags e fotografias partilhadas nas redes sociais, passando naturalmente pela imprensa e televisão
Por menos bons motivos, Arouca salta para o panorama noticiário português por ser a naturalidade e transitório esconderijo do homem mais procurado de Portugal, que, sendo acusado de provocar mortes, sequestros e furtos, foge desembaraçadamente às autoridades, durante quatro semanas, acabando por se entregar...onde? Exatamente, em Arouca, para onde correm novamente todos os órgãos de comunicação social. Entre diretos e exclusivos, a palavra "Arouca" é proferida incontáveis vezes para todo o país, (e mundo, através da RTP Internacional). 
É verdade que Arouca sempre foi privilegiada pelo seu património cultural, natural e gastronómico - sempre tão ricos-, no entanto, nunca, nos mais recentes anos, foi tão falada e conhecida e visitada como nestas últimas dezenas de meses. 
Seja pelos frequentes eventos da terra ou pelos cobiçados Passadiços do Paiva; seja pela vitela de Raça Arouquesa ou pelos doces conventuais; seja pela procura e entrega de Pedro Dias ou pelo turismo - sempre tão promovido; seja por concentrar os mais preocupantes incêndios do país ou pelo Futebol Clube de Arouca; Arouca é incansavelmente discutida e já mostrou não ter impedimentos para, de alguma forma, se integrar no agendamento dos media e estar na ordem dos assuntos do dia. E dos meios de comunicação social às conversas de café e de rua a distância é pequena. Se antes quando se dizia que se era de Arouca isso nos obrigava a explicar que o concelho "é uma vila que pertence ao distrito de Aveiro mas é mais perto do Porto", hoje em dia, quando se diz que se é de Arouca não são precisas mais explicações, independentemente de se estar no Norte, Centro ou Sul de Portugal. 
Afinal, o que aconteceu com esta localidade do Douro Litoral? Como é que em escassos anos alcança um estatuto de conhecimento tão elevado? As coisas acontecem. E aqui não foi só uma nem duas, foram várias. E foram concentradas. Se se irão continuar a suceder?, não há como pressagiar. Tal como é também impossível de prognosticar se, daqui a meia dúzia de anos, já todos se esqueceram de onde é, como é e o que existe em Arouca. 
E mesmo que apareça um pouco conhecido jornalista para dizer que Arouca é uma terra feudal - saber-se-á lá porquê - o certo é que, por agora, "Arouca é moda", como dizem por aí. Embora todos saibamos que nenhuma moda dura para sempre, não é verdade!?

Crónica da edição de novembro do Roda Viva Jornal 

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Amo o Campo, mas sou da Cidade.

É verdade que cresci junto às margens do rio menos poluído da Europa e que a natureza sempre me inspirou e me fez feliz. Sempre fui da aldeia, mas sempre amei a cidade. Pela sua imensidão de luzes, pelo barulho dos carros, pelo tão simples acesso à arte e à cultura, pelo stress do dia-a-dia, pela sua dinâmica tão mais viva que a da aldeia. Hoje, sei que, como em todos os dias da minha vida, desde sempre, amo a aldeia e o campo, mas sou da cidade. Sou-lhe pela forma como me entrego e a abraço em mim, pela forma como lhe dou de mim e me envolvo nas suas iniciativas. E continuo a ser grande apreciadora da aldeia e do campo, a amar o rio e a serra, a gostar do descanso ali proporcionado. Mas hoje sei que não posso voltar às costas à rotina da cidade, à azafama de um dia-a-dia agitado, onde se corre contra o tempo, mas há tempo para um café de final de tarde, numa pastelaria do centro da cidade, onde o cheiro do pão acabado de sair do forno não cessa. E há tempo para ir ao cinema, ao teatro e a todos os espetáculos que nos incubem interesse. E sou da cidade, seja uma grande ou uma mais pequena, seja uma industrial ou uma mais cultural. Sou da cidade porque quero e porque é onde me sinto em casa, embora não viva sem a aldeia e tudo o que a esta está ligado, mas sou da cidade.