terça-feira, 25 de outubro de 2016

Outono e ruas

Está tão bonita a rua, escondida pelas folhas, que, em jeito de rebeldia, se soltaram das árvores. 
Está tão bonita a rua, pela manhã, quando ainda não foi varrida. 
Está tão bonita a rua, sobre a qual posso caminhar enquanto pontapeio folhas. 
Está tão bonita a rua. 
Por favor, olhem todos.
Demora um minuto, ou cinco segundos. 
Tudo depende da intensidade e entrega do olhar.
Mas está tão bonita a rua, agora molhada pela chuva. 
Está tão bonita a rua. 
Transmite delicadeza e amor.
Transmite paz e felicidade.
Está tão bonita a rua.
Eu juro que a rua está tão bonita.


sexta-feira, 21 de outubro de 2016

21 de outubro, 15:31

Gosto de estações de comboios. Acho que gostaria de qualquer forma, mas Coimbra tem-me permitido fomentar este pequeno amor. Gosto de estações de comboios ao ponto de sair propositadamente uma hora mais cedo de casa só para ficar na estação, a observar e a sentir o contexto e o ambiente. 
Gosto do som das malas a deslizar pela linha, dos telefonemas a dizer a hora de chegada, das despedidas, dos reencontros. E gosto ainda mais quando estou de caderno e caneta na mão a registar tudo isso. 

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Posturas

A nossa passagem é sempre mais curta do que aquilo que gostaríamos. Embora poucos admitam um desejo de eternidade, muitos são os que acrescentariam, se pudessem, décadas de anos aos que lhes estão destinados a viver. E somente a sensação de que se viveu intensamente pode aliviar a dor do pensamento de morte/fim. Não, não se consome todo o desalento, o fim é algo que, não só na vida, nos transtorna e nos desassossega de forma inevitável. No entanto, a entrega cedida aos momentos e o vivenciar cada um intensamente são formas de amenizar as feridas do adeus - ou do medo dele. E são também posturas que em muito contribuem para a felicidade e satisfação pessoais. 

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Começou para acabar

Começou para acabar. Não é o que acontece com tudo? Tudo o que começa, acaba. Não é que comece exatamente com o fim único de terminar um dia, porém, é a primeira e maior certeza que podemos possuir em qualquer contexto e circunstância. Tudo tem um fim. É a lei da vida, a própria também o tem: a morte. Tudo tem um fim, mas há fins mais dolorosos que outros. Não vacila a consciência de que esta é "a ordem natural das coisas". Contudo, a determinação do pensamento é incapaz de amenizar o pânico do adeus - essa palavra tantas vezes pronunciada e da qual todos querem fugir. Há "coisas" que nos marcam profundamente, pelos mais variados motivos, mas principalmente porque nos mudam, tornando-nos melhores seres humanos e pessoas mais felizes. E por mais intensamente que se viva cada momento não há nada que apazigúe a dor de sentir o fim aproximar-se. O prazo é curto e as saudades são precoces. Somos tão fortes e tão frágeis quando nos deixamos sentir. Mas a vida vale a pena. As alegrias compensam pelo prazer proporcionado. E a vida desenrola-se em dois culminares: prazeres e dores. E há claramente prazeres que provocam dores e dores que proporcionam prazer. Aqui é assim. É tudo muito triste porque é tudo muito bom. Aliás, é melhor que bom, é tudo tão perfeito, tão maravilhoso... E por isso também é tudo mais que triste, é desolador e horripilante. E por isso mesmo acabando, é tão gratificante ter existido!