quinta-feira, 30 de junho de 2016

A música como uma luz no escuro (Entrevista com Ana Domingues)


Ana Domingues é uma estudante de Comunicação Social, em cujo gosto pela música desde cedo se manifestou. Essa paixão foi o motor principal para a sua presença na banda "The Lights In The Dark"- uma banda de rock - da zona de Leiria e na qual Ana é guitarrista e faz segundas vozes. 
Ana considera a música uma luz, embora esta seja muitas vezes menosprezada em Portugal. Isso levou a que a sua banda se submetesse, numa fase inicial, a "explorações". 


Há quanto tempo existem os "The Lights in The Dark" (TLITD) e como tudo começou? 
Os The Lights In The Dark surgiram há quase 2 anos (vão comemorar o 2º aniversário a 3 de julho). A nossa primeira vocalista (Mariana Pedrosa) já tinha falado comigo relativamente à formação de uma banda. Os rapazes também já andavam a planear um novo projeto musical, de originais. Como já nos conhecíamos todos por andarmos na mesma escola, foi quase como um “click” automático. Apercebemo-nos de que só nos faltava uma teclista e a Mariana lembrou-se da Maria Marques (a nossa primeira teclista). Foi um processo simples e rápido. Desde logo, as coisas correram bem, obviamente com erros ao início que foram sendo trabalhados, mas acabámos por dar o nosso primeiro concerto em setembro.

De onde surgiu a ideia para o nome? 
O nome foi algo complicado, todos tínhamos gostos e obviamente personalidades muito distintas. A Maria foi quem sugeriu este nome e na altura sugeri que como “imagem de marca” da nossa banda caso ficasse este nome poderíamos usar pulseiras de néon, assim, se as pessoas não memorizassem o nome, memorizavam algo relacionado connosco. Traduzindo, “as luzes no escuro”, tinham também que ver com o facto da importância da música, e de para nós ser como que um abrigo, uma luz…

A música desde sempre foi uma paixão para ti? 
Sim, desde que me lembro sempre tive uma paixão enorme pela música. Também desde muito cedo percebi que cantar não era o meu forte! (risos)
Com 4 ou 5 anos queria aprender a tocar violino, depois flauta transversal e depois começou o meu amor pela percussão. Mas o único instrumento que tenho relacionado com esta é um jambé. Desde pequenina adorei guitarras, e comecei a aprender a tocar com 14 anos. Ainda assim, se um dia tiver uma bateria e aprender a tocar, vou ser uma pessoa muito mais feliz e realizada!

Preferes músicas portuguesas ou estrangeiras? Porquê? 
Isso é muito relativo. Confesso que atualmente oiço mais música estrangeira, mas isso não quer dizer que não goste da portuguesa. De pimba não gosto de certeza, não é de todo o meu estilo, e tenho muita pena que nos programas de televisão só passe esse tipo de música juntamente com as brasileiradas e com o kizomba. Há músicos com bastante qualidade em Portugal, mas as pessoas aqui são bastante “comerciais”. Portugal tem muito talento a nível musical. E não falo só a nível do tipo de música que consideramos como património, e única no mundo – o fado – mas sim a nível de música clássica e também música mais alternativa como por exemplo, o indie

Achas que a música portuguesa é menosprezada? 
Sim, sem dúvida! Para já, porque a maioria das pessoas não conhece música portuguesa de qualidade, porque como referi anteriormente, o tipo de música que os meios de comunicação passa não são os melhores. Mas para além disso, acho que a arte no geral é um bocado menosprezada. E nós, nos The Lights In The Dark conseguimos notar isso por exemplo por nos pedirem constantemente para baixar os preços ou para fazermos “um preço amigo”. As pessoas não pensam em todo o trabalho e todo o tempo investido para no final se ter 1h30 a 2h de concerto. Parece tudo demasiado fácil e simples. 

No mundo da música e, nomeadamente, para quem está a começar quais são os principais problemas que surgem? 
Acho que um dos principais problemas são mesmo os custos que a música implica. E o público em geral não pensa nisso, ou nem tem a mínima noção. As aulas são caras. O material é caro, e normalmente não se compra só o instrumento. Há sempre acessórios. Desde palhetas e cabos a amplificadores. Desde simples baquetas a pratos de centenas de euros. Os TLITD, tiveram de investir numa mesa e num sistema de som, bem como noutros materiais mais básicos (cabos, microfones), para terem condições mínimas para poderem dar um concerto, fora os investimentos pessoais e de manutenção, e ainda assim há pessoas que ou pedem para baixar o preço ou pedem concertos de graça. Não têm noção das horas que se perdem a ensaiar, nos investimentos monetários, em combustível gasto no transporte para todos os ensaios e concertos… Outro problema para algumas pessoas é o tempo. Tocar um instrumento é algo que exige principalmente na fase inicial, muita dedicação e muito treino. E às vezes, por mais que se goste daquilo que se faz é complicado arranjar tempo para as várias atividades que se têm.

O que fazem os TLITD para ultrapassar esses problemas? 
Inicialmente tivemos de nos submeter um bocado à “exploração” porque para “vendermos” o nosso produto (a música), tínhamos de a mostrar. O que quero dizer com isto, é que quando começamos as pessoas obviamente não nos conheciam, não sabiam se tocávamos e cantávamos bem. Por isso, inicialmente, submetemo-nos a uma série de concertos de graça, ou quase sem ganhar nada para publicitar a nossa banda, darmo-nos a conhecer... À medida que fomos ganhando algum nome, que fomos divulgando a nossa página do facebook, dando cartões de visita e à medida que partilhámos alguns vídeos fomos começando a ser pagos e minimamente conhecidos na nossa zona.
The Lights In The Dark
Como somos 6 membros: Simão-guitarrista, Ana-guitarrista, Thierry-baterista, Rudi-baixista, Dina-vocalista, Carolina- teclista; nem sempre é fácil conciliarmos a diferença dos nossos horários com as nossas atividades. Tentamos marcar os ensaios para um dia que dê para todos, até às últimas semanas esse dia era ao sábado mas provavelmente agora nas férias os ensaios vão passar para a segunda à noite porque há pessoal a trabalhar…Mas basicamente tentamos ter um dia de ensaios fixo e tentamos não marcar mais nada para as horas que costumamos estar a ensaiar.

Consideras que vale a pena ser artista em Portugal? 
Como diria o nosso “amigo” Fernando Pessoa, “tudo vale a pena, quando a alma não é pequena”. Mas isso parte um bocado de cada um. Depende se consideramos isso do ponto de vista monetário, ou do ponto de vista de fazermos algo que gostamos. No primeiro ângulo de abordagem, a resposta é que é difícil. Se entramos no mundo da música só pelo dinheiro é complicado. Porque a indústria da música em Portugal não partilha com os portugueses alguns tipos de música, ou artistas mais recentes. Bandas jovens de rock e metal, por exemplo, são menosprezadas. Vemos é vários artistas a solo, cantores mais comerciais… e como já referi de pimba, de Kizomba… Porém, se nos considerarmos artistas por fazermos algo que gostamos, aí sim vale a pena! Até porque eu acho que o dinheiro é como que apenas uma parte de ser artista. É algo que vem por acréscimo e como já referi no exemplo dos TLITD não é algo que aparece logo. E quando finalmente começamos a ganhar dinheiro nos concertos na maior parte das vezes e para a maior parte dos membros dos TLITD e de outros músicos são para investir em material de forma a melhorar o nosso som e a nossa qualidade musical. O importante é estarmos a desfrutar do momento, sem nos preocuparmos com nada. Somos nós, a música e o público. E quando há uma forte interação, aí sim, sentimos que vale a pena. Todo o esforço, todos os investimentos, todas as horas de trabalho e motiva-nos muito para continuar.


Quais são os objetivos que a banda pretende alcançar? Já delinearam alguns?
Inicialmente, a nossa banda pretendia compor vários originais. Nos nossos primeiros concertos, tocávamos só covers, até que começamos a escrever e compor alguns originais que depois tocávamos também nos nossos concertos. Tivemos 6 originais prontos a tocar e mais 2 ou 3 escritos. Entretanto quando a Mariana saiu da banda e a Dina entrou, ainda não houve o tempo necessário para rever e reconstruir todos esses originais, já que estes exigem muito tempo e envolve todo um processo complexo. Como desde a entrada da Dina fomos tendo vários concertos, e a maioria entrou para a universidade (o que afeta aos ensaios, que por vezes se realizavam em tempo de aulas) acabámos por nos focar em covers principalmente de música rock.
Penso que os nossos objetivos são comuns à grande maioria dos artistas: fazer aquilo que gostamos e fazermos as outras pessoas divertirem-se com aquilo que fazemos. Obviamente pretendemos evoluir, e sair um bocado da zona de Leiria. Seria excelente dar concertos noutras zonas de Portugal e partilhar a nossa paixão por aí!
TLITD, durante um concerto
A nível pessoal, pretendes continuar a conciliar a música com outra atividade, nomeadamente na área da comunicação social, tendo em conta que é o curso que estás a tirar, ou gostarias de viver da música? 
Pretendo conciliar a música com a comunicação social. São duas áreas das quais gosto muito e como já referi, viver da música como música/artista em Portugal ainda é complicado! Espero futuramente quando acabar o curso, arranjar um emprego na área e simultaneamente continuar ligada à música. Após este primeiro ano no curso, percebi que é mesmo o que quero e o que gosto! Uma vez que o curso se expande em duas vertentes vou seguir a que está ligada à produção de conteúdos e quem sabe, daqui a algum tempo até posso relacionar isso com a minha banda! Mas ainda assim, não gosto de ver a música como trabalho. A música é algo que me distrai, algo que me faz feliz, é o meu abrigo ou a minha “luz no escuro”, é algo que me permite estar com os meus amigos e divertir-me é algo que me permite ser outra pessoa, faz-me soltar e não ter vergonha, mostro o meu lado mais selvagem embora nem note isso, faz-me viver o momento e tocar cada acorde como se fosse o último, faz-me sentir tudo de forma muito intensa... E quero continuar a vê-la assim. Quero (mesmo muito) continuar com os The Lights In The Dark, porque para além de sermos uma banda, de sermos colegas e músicos, somos amigos e acho que essa empatia é evidente em palco! 


quarta-feira, 29 de junho de 2016

(Ir)realidades

E se nunca tivesses nascido? Se nunca tivesses existido? 
Já paraste para pensar como estaria agora a tua vida se num ou noutro momento tivesses tomado outras decisões e atitudes em vez daquelas que tomaste? 
Se tivesses vivido noutro lugar, se tivesses andado noutra escola e conhecido outras pessoas, se tivesses escolhido outro curso, se nunca tivesses pisado determinada cidade... Já paraste para pensar como seria se as pessoas que existem na tua vida e são importantes para ti nunca tivessem cruzado os seus caminhos com o teu?
Olha para a vida que tens e imagina o quão diferente poderia ser. Melhor? Pior? Impossível saber. 
O peso das decisões que tomamos é avassalador, pequenas opções podem determinar o rumo da tua vida. Vê só o tamanho da responsabilidade que é viver. Ter de tomar conta de uma vida, ser responsável total por uma vida - algo tão precioso. 
Todos os dias, somos forçados a agir. E cada pequena atitude é um atalho ou a estrada principal para algo. 
Todos os dias, vemos, sentimos e vivemos. Todos os dias, podemos fazer algo diferente com a nossa vida. 
É assustador olhar à nossa volta e imaginar no quão diferente tudo podia estar. 
Aquela pequena decisão que tomamos hesitantemente mas que hoje é a mesma que confere sentido à nossa vida. Aquela grande decisão que tomamos e não devíamos ter tomado porque nos levou à ruína. Todas as decisões que já tomamos não deixam de ser curiosas. Como seria se não as tivéssemos tomado? 
É este mistério, este pânico, esta sensação de "E se..." que se torna fascinante e que é motor de pensamentos profundos e divagações constantes. E é isto que é viver. 
No entanto, surge a questão "Será que tudo depende mesmo de nós?". Às vezes, acontece tudo de forma tão estruturada que somos confrontados com a palavra 'destino'. Existe, não existe? Manda mais que nós, manda menos? E as coincidências? Acreditamos, não acreditamos? 
E é aqui que reside a permanência do fascínio. 

terça-feira, 21 de junho de 2016

Pensamento do dia

O verão começou há apenas algumas horas e eu estou cansada. Será que o verão me recebe da mesma forma? Estará o verão, tão velhinho, cansado de toda esta rotatividade das estações do ano? O meu cansaço está cada vez mais gasto. Por vezes, assemelha-se a um cansaço intelectual. Não sei se o é, mas sei que físico não é certamente. E a minha mãe concordará. É que eu não faço nada. Podia acordar cedinho para ir correr, mas nem isso. Podia arranjar um emprego de verão, mas ninguém parece precisar de mim. Devo, essencialmente, estar cansada de pensar e formular teorias que depois reformulo e se encontram em constante estudo. Esta minha mania de ser pensante. Não sei até onde ela me vai levar, para já, intensas dores de cabeça e um cansaço estonteador. Obrigada, era tudo o que eu mais queria para este primeiro dia de verão. 

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Arouteatro: "formar todos os que amam o teatro e que não querem ficar só pelo lado amador"

Sérgio Ribeiro
Arouca, terra onde o associativismo é, desde sempre, uma palavra bem conhecida das suas gentes, tem agora uma nova associação - Arouteatro - que aposta na formação teatral. À frente deste projeto, está Sérgio Ribeiro, estudante de Teatro e Artes Performativas, na Universidade de Trás-Os-Montes e Alto Douro (UTAD). 


De onde surge a necessidade de criar uma associação que visa formar atores?
Desde pequenino, que gosto e faço teatro e então tive sempre o objetivo de obter formação nesta área. Após vários anos de procura, cheguei à conclusão de que Arouca não tem qualquer escola ou grupo capaz de satisfazer a necessidade da educação na área do teatro. Se quisesse aprender algo mais teria de me deslocar para cidades próximas. 

Qual o papel que desempenha o teatro nas sociedades portuguesas? 
A sociedade portuguesa gosta de ir ao teatro. Talvez para esquecer os seus problemas por alguns minutos, para se rirem ou até mesmo para aprenderem algo novo. E o teatro é mesmo isso, não só uma maneira de expressar mas também uma maneira de ensinar, de entreter e de ajudar o outro. 


Quais os principais objetivos para o projeto Arouteatro? 
O principal objetivo do projeto Arouteatro é formar todos os que amam o teatro e que não querem ficar só pelo lado amador. Dar conhecimento às pessoas das várias áreas existentes nesta arte, com a finalidade de mostrarem ao público toda a aprendizagem obtida. 

Como irá funcionar a associação?
A associação gostaria de trabalhar em todas as freguesias que quisessem aderir a esta formação. 
O objetivo é criar algumas ‘turmas’ por faixas etárias e dar formação a elas mesmas e ter como produto final um espetáculo aberto a todo o público. 

O que aprendeste na licenciatura que irás aplicar no projeto?
Bom, o teatro é uma aprendizagem constante que requer sempre pesquisa e mais pesquisa. É claro que muitos exercícios, muitas teorias que aprendi na licenciatura irei aplicar no projeto mas não me ficarei só por aí. Irei também aplicar exercícios novos consoante o grupo e as suas necessidades de aprendizagem. 

Como é que a população arouquense olha para o teatro e em que medidas costuma aderir?
Cada vez mais a cultura em Arouca está a ser desenvolvida. Cada vez há mais concertos, filmes, exposições e teatros no concelho. O público arouquense adora a arte e por isso sempre que pode está presente nesses eventos, tanto como público como participante.

De que forma irá o Arouteatro enriquecer o concelho?
Desde já, esta associação me irá enriquecer tanto a nível pessoal/sentimental como também profissional. A troca de ideias enriquecerá não só os formandos como também os formadores. Juntos irão trabalhar para que o Teatro em Arouca tenha mais impacto. 
Que cada espetáculo apresentado dê sempre alguma moral e/ou conhecimento ao público. 

És o líder deste projeto. Liderar é para ti algo novo ou algo já habitual?
Sim, de facto escolheste bem a palavra. Um líder trabalha em equipa e é isso que nós somos, uma equipa. É a primeira vez que estou neste papel embora não me considere como tal pois a associação é um projeto de todos os envolvidos e conto com eles para juntos o levarmos para a frente. 

Quais são as expetativas relativamente à adesão dos arouquenses? 
Pelo que tenho reparado ao longo dos anos, o povo arouquense procura estar envolvido à Arte. 
Cada vez há mais jovens a querer seguir esta área assim como pessoas de outras faixas etárias com o gosto enorme pelo Teatro. Por isso, chego à conclusão que terá bastante adesão.

O que tens a dizer aos Arouquenses amantes das artes do palco?
O Teatro é uma paixão enorme e para mim é sem dúvida a Arte mais bonita. É bom poder ter novos sentimentos, ser novas personagens e viver novas ações. É bom partilhar isso ao público e receber as suas palmas que tanto enriquecem os atores. Teatro só é teatro graças ao público e sem dúvida aos atores. 
Por isso, convido todos os arouquenses que queiram partilhar este amor a juntar-se a nós, a obter a formação, a criarem a sua personagem de modo a se enriquecerem com as palmas do público.
Sérgio, na Recriação História de Arouca, 2015

quarta-feira, 15 de junho de 2016

"Artistas a Tempo Inteiro"

"Os músicos talvez envelheçam, os pintores talvez se tornem meio loucos, os poetas talvez se suicidem ou tornem-se outra coisa em outro lugar que não aqui, mas os atores e as atrizes de teatro, esses sim, nunca envelhecem, nunca param o sonho, têm sempre um sorriso aberto, o corpo esticado em expressões alegres e talvez nunca cresçam e deixem de ser eles mesmos. É o que se vê claramente nas fotos dos bastidores ou durante a arrumação do palco, diante do espelho enquadrado por lâmpadas incandescentes ou na saída para o bar após o espetáculo. Creio que até em suas casas, quem sabe até a dormir. São artistas a tempo inteiro. Percebe-se bem. Admiro-os."
- José Roldão 

Este texto, escrito por um não ator, deixa inevitavelmente transparecer uma grande parte da magia do teatro. Revela o quão especial é a arte de representar perante todo o enorme mundo das artes. Um palco não é um sítio qualquer. Uma fala nunca é simplesmente e apenas uma fala. E os bastidores são bem mais do que mostram os documentários e as câmaras escondidas. Talvez só outro artista consiga percecionar esta magia envolvente. Só um escritor seria capaz de descrever este pequeno grande mundo. É por isso que, ao ler este texto, qualquer ator ou atriz de teatro - por mais amador que seja - se sente percebido. Sente que existem outras pessoas capazes de constatar o fascínio que é o teatro. Sente que são notáveis as suas "expressões alegres" e o seu "sorriso aberto". Que o "sonho" é efetivamente relevante. E, acima de tudo, sente-se modestamente reconhecido. Um ator falar de teatro com todos os sentimentos é o esperado. Um não ator falar de teatro e dos sentimentos por este proporcionados, é motivo de reciprocidade na admiração. Obrigada, José Roldão, por este texto que aparentemente só um ator compreenderia. Mas, pelos vistos, somos todos artistas e a arte não é uma mensagem criptografada. 

sábado, 4 de junho de 2016

Masoquismo efervescente

Quando nos sentimos felizes quais são exatamente as sensações que nos dominam? Que estupidez querer exatidão quando se fala de sentir. 
Mas que coisa é essa da felicidade e por que razão há tanta gente a queixar-se da sua ausência? 
É que tristezas, desilusões, todos têm, todos expõem, todos partilham. E as alegrias, a sensação de felicidade não pode revelar-se por que razão? 
Sim. Nada dura sempre. Os momentos mudam. Os sentimentos à flor da pele não são sempre semelhantes. Os momentos de felicidade não são eternos. Os de desgosto também não. É por isso que a vida é tão especial.
Não obstante, se promovemos tanto as desilusões e infelicidades porque não valorizamos as - ainda que, por vezes, pequenas - alegrias? 
Somos pessimistas e masoquistas. Não aceitamos o que de bom a vida nos proporciona. Fechamos os olhos aos aspetos positivos como se eles fossem apenas ilusão. Não. Não são. Ilusão é acharmos que tudo o que é bom - só porque é bom - nos está a iludir. 
O mundo seria feliz se as pessoas se deixassem ser felizes. Se entregassem sem medos. Se libertassem das próprias amarras. Não temos porque não agarramos. Não sentimos porque não abrimos o coração. 
Todos os dias acontecem coisas boas e más. E se nada de mau acontecer é porque já foi um bom dia, ainda que rotineiro. Mas quantos de nós nos deitamos na cama, ao final do diz, e pensamos "este dia foi feliz, que bom viver."? Pois... Mas o "Hoje foi um mau dia" ninguém hesita dizer ou pensar. Não há mal nisso. O mal é não sermos equitativos. O mal é só vermos por metades. O mal é este apego ao masoquismo que parece crescer - nas sociedades - a cada dia que passa. Quase que vira moda. Antes, havia a vergonha de confessar uma depressão. Hoje, parece haver orgulho nisso. 
Casos não são casos, é certo. Porém, acusem-se aqueles que assumem a felicidade sem pudor, aqueles que se entregam à vida sem "ses". Acusem-se e eu calo-me.