segunda-feira, 25 de abril de 2016

Livres ou libertinos: eis a questão

Somos netos daqueles que viveram oprimidos e somos filhos daqueles que foram criados pelos que viveram oprimidos. Quatro décadas não são suficientes para que se apaguem todas as marcas, as consequências da ditadura sentem-se ainda nas novas gerações. 
Dos oprimidos aos que são livres, ainda sem o saber, e destes aos que usam a liberdade como argumento para tudo. Aqueles que, talvez por desconhecerem o que é não ser livre, desconhecem o que é a liberdade. 
Hoje, todos se consideram livres, no entanto, poucos fazem um correto uso dessa mesma liberdade. Porque, meus amigos, liberdade não é fazer e dizer tudo e mais alguma coisa. Liberdade não é não ter limites. 
Hoje, não há liberdade a mais, como outrora defendi. Hoje, há mais libertinagem do que liberdade. 
Vivemos, aqueles que nunca por lá passaram, pseudo amedrontados com a ideia da ausência da liberdade, e queremos, assim, usá-la por nós e pelos nossos avós que não a conheceram, queremos afirmar-nos como alguma coisa, queremos simplesmente dizer e fazer tudo o que nos apetece - só porque sim. 
"Posso porque sou livre"
Podes. Mas não podes tudo!
Liberdade não é humilhar o outro. Liberdade não é limitar o outro. Liberdade não é poder desrespeitar. Liberdade não é mandar. Liberdade não é viver sem regras. 
A liberdade é preciosa, por isso, custou tanto a conquistar! E como bem precioso que é, deve ser preservado, deve ser corretamente utilizado. 
É assim tão díficil perceber os limites da liberdade? 
"Liberdade significa o direito de agir segundo o seu livre arbítrio, de acordo com a própria vontade, desde que não prejudique outra pessoa...", basta ir ao dicionário, seria tão mais fácil que todos questionassem o que é a liberdade, antes de se atreverem a impor-se como livres. 
Ninguém tem o direito de dizer que é uma coisa que nem sabe o que significa. Porque, de entre todos os que se dizem livres, muitos são apenas libertinos. 

sábado, 16 de abril de 2016

Mas ai que tu és real

Eu estava em trabalho quando te avistei. Depois de conhecer o teu sorriso por fotografias e a tua personalidade pelas palavras que escrevias. Terás, algum dia, por acaso, reparado numa fotografia minha ou lido as minhas palavras? Quiçá. Desvio-me para que não nos cruzemos. Não estou bonita hoje. Estou em trabalho. É de manhã e passei a noite num bar desta cidade a beber. Apanhei o cabelo porque não tive tempo de o lavar e está áspero e cheira a tabaco. Não me maquilhei, pois seria estúpido tendo em conta as circunstâncias. Vesti umas calças de ganga, calcei as minhas vans e vesti uma sweatshirt. Tenho um bloco de notas e uma caneta na mão para anotar as perguntas da entrevista que vou fazer, mas só me apetece anotar a sutileza de cada movimento teu. Acabo de me perder. Já não sei para onde me dirijo, e eis que depois do desvio caminho mesmo atrás de ti. Inspiro fundo na esperança de inalar o teu perfume, porém, lembro-me que o desconheço. És real. Agora não resta superfície para dúvidas. És real e ai que morro por saber que és real. Abro o bloco de notas e começo a escrever. A sensualidade com que mudas os pés e caminhas, lançando charme na minha mente, o teu cabelo que o vento desloca lentamente. Não deixo que nenhum detalhe me escape. Terminaram as folhas deste bloco. A entrevista vai ter que ficar para outro dia. Mas ai que tu és real. Ninguém me contou, eu vi(-te).

terça-feira, 12 de abril de 2016

"O Alto" em alta

Se, antes, me falassem de Marco de Canaveses, provavelmente, pensaria em tudo, menos numa série de TV. 
No entanto, hoje, este território do distrito do Porto, deu ao país, mais que entretenimento, inovação e mostras de talento. 
"O Alto", assim se chama a minissérie, de 7 episódios, que chegou à televisão na semana passada e, diz a comunicação social, "apaixonou os portugueses". 
Em 1960, durante o regime salazarista, a família João-Azevedo é, pela existência da PIDE, forçada a abandonar as terras marcoenses e exilar-se. Para trás, ficam amores proibidos, ficam segredos por desvendar e ficam vinganças por servir. 
Em 1980, o ecrã colori-se e a família regressa a Marco de Canaveses, onde as mudanças já se sentem: um país onde já não há ditadura, um visconde onde já não existem títulos, uma casa que o tempo desasseou. 
Há descobertas para fazer em cada um dos 7 episódios. 
Sendo uma série de amadores, nem tudo é, naturalmente, perfeito. Apesar disso, o empenho é notório. Embora nem todos os atores sejam sensacionais a representar e existam personagens com aparelho nos dentes, a série não perde a magia, para aqueles que, durante pouco mais de meia hora, se deleitaram sobre o ecrã.
A RTP2 está, mais uma vez, de parabéns, por se distinguir dos outros canais, com a sua programação de requinte. 
Os Alphatones (grupo produtor da série) estão também de parabéns, quer pelo trabalho realizado, quer por terem feito esse mesmo trabalho ser partilhado com todos. 
A banda sonora é deliciosa, a história é arrebatadora, cada personagem é especial e seria impossível eleger uma favorita. 
O último episódio é, talvez, o mais forte a nível emocional. 
A história acaba sem acabar, muitas revelações ficam por fazer, amores ficam por reencontrar, palavras ficam por dizer, acontecimentos ficam por acontecer, e uma questão por responder: tudo ficará por aqui?