quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Filipe Vieira Branco - Escritor (e) voluntário

Filipe Vieira Branco é mais um jovem escritor. Distingue-o o seu altruísmo, a sua vontade de ajudar as pessoas que vivem no mesmo mundo que ele. Publicou o primeiro volume de uma sequela, está a preparar um livro autobiográfico e, enquanto vive em Itália, onde se encontra num projeto de voluntariado, lançou um projeto que visa ajudar uma instituição da sua terra.  

Publicar um livro sempre foi um sonho, para ti?
Sim, sempre. Pelo menos desde que me lembro de ter gosto em escrever.

Com que se podem deparar os leitores de "O Dia Em Que Nasci" ?
Com uma história em que criei um género de distopia, acompanhando a aventura de um jovem que parte à descoberta de um mundo que desconhecia por completo. Podem deparar-se também com algum mistério e com algumas questões que quis levantar sobre a forma como estamos a viver atualmente.
O autor com os pais e o seu livro
Escreves por gosto ou para te libertares, descarregares frustrações?
Por gosto, primeiro. Mas a escrita para mim é sempre uma forma de descarregar sentimentos, sejam eles frustrações ou não. É também por isso que há muitos textos meus que ninguém irá ler. Às vezes são também como exercícios que faço só para mim.

Além da escrita, fazes voluntariado. Em que sentido isso te completa como pessoa?
Quando se é voluntário, aprende-se a ver o mundo de outra perspectiva. Cruzamo-nos com diversas realidades. Tudo muda. E é difícil explicar isto, mas acredito que começamos a dar mais valor às pequenas coisas que temos. Isso completa muito o meu ser. Preciso de sentir isso para viver. E já nem conseguiria viver sem estar ligado a algum projecto de voluntariado.

Achas que o mundo seria um lugar melhor se as pessoas fossem mais altruístas?
Seria um lugar muito melhor. Não tenho qualquer dúvida. Faz falta, a algumas pessoas, saírem da sua bolha e entrarem por momentos nas realidades dos outros, mas entrar mesmo a sério. Participar, ajudar, experimentar. Se a sociedade no geral se baseasse mais em sentimentos destes, seríamos todos mais felizes. O egoísmo nunca foi positivo para ninguém.
Neste momento, estás em Itália, num projeto de voluntariado, na cidade de Forlí.  A cidade inspira-te e impele-te para a escrita ou o dever fala mais alto e não há grande tempo para escrever?
Não falo só da cidade onde vivo, porque felizmente tenho viajado bastante por outras cidades, mas sim... inspiram-me e muito. Tenho escrito bastante, embora gostasse de ter mais tempo para isso. E até tenho muito tempo livre, mas há sempre algo para fazer com outros voluntários. E por outro lado, tento não ficar demasiado abstraído da realidade que estou a viver neste projecto único (e que só se tem uma vez na vida!).

No dia 31 de janeiro, anunciaste um novo projeto - "O Elevador". Explica esse projeto.
No ano passado, estava a fazer uma apresentação pública do meu primeiro livro ("O Dia em que Nasci") e uma grande amiga minha levou até lá dois rapazes do Lar de Infância e Juventude de Torres Novas. Aí tive um contacto directo com esses dois jovens e foi algo que me marcou e emocionou de uma forma tremenda. Sei que as suas vidas, e dos outros rapazes do Lar, não são fáceis. Ou não eram, pois agora na instituição têm todo o tipo de apoio que se pode esperar para estas situações (alguns jovens vêm de contextos sociais muito complicados). Essa minha amiga é técnica de acção social e trabalha muitas vezes com eles, e daí foi surgindo uma ideia de ajudar o Lar de alguma forma. Entretanto vim embora para Itália mas não deixei a ideia de parte. Decidi portanto publicar o conto “O Elevador” com o valor de 1€ a reverter para o Lar dos Rapazes. Para além de ser uma história que fala sobre um mal que está a assolar a sociedade, a tal falta de altruísmo, achei que seria muito mais completa se fosse associada a uma causa maior como esta.

Tencionas ajudar pessoas com a tua escrita, não só monetariamente, mas também através do conteúdo das tuas palavras? Qual é o teu maior objetivo quando escreves?
Sim. Esse é um dos meus objectivos, conseguir fazer com que alguém, através da minha escrita, consiga processar os seus próprios sentimentos, as suas dúvidas. Depois do primeiro livro publicado, um dos melhores momentos que tive foi ouvir outra pessoa falar sobre aquilo que eu tinha escrito e sobre como isso lhe tinha levantado tantos pensamentos e questões sobre a vida e o mundo. Quero continuar a despertar esse tipo de sensação.

Pensas voltar a publicar um livro? O que podes adiantar sobre isso?
Sim. “O Dia em que Nasci” vai ter uma sequela. Planeio lançar esse livro lá para 2017. Mas entretanto, ainda este ano, lançarei o meu livro biográfico, que conta a minha história desde o dia em que cheguei a casa e contei aos meus pais “Sou gay!”. Esse livro já tem um título e tenho preparada uma campanha especial para o divulgar. Por isso, o título que escolhi não vai dar apenas nome ao livro. Mas por agora ainda é tudo segredo. Só há uma pessoa que sabe o nome do livro. A minha irmã. E não é por acaso. O tal título é algo realmente especial, mas não consegui escondê-lo da pessoa que mais me protegeu em toda a história que este conta.

Quais são os sonhos que já concretizaste e os que ainda tens para tornar reais?
É um pouco estranho dizer isto, e nada romântico, mas não me sinto em busca de realizar algum sonho agora. O meu maior sonho era publicar o livro. Tinha outro que era visitar Itália e Firenze (Florença). Realizei esses 3 sonhos no ano passado, mesmo antes de chegar aos 30 anos (que completei há uns dias). Quero com isto dizer que fechei um ciclo de sonhos perfeitamente. Claro que tenho outros objectivos, outros vão surgindo, mas tudo o que vier agora é sempre por acréscimo. E depois de chegar aos 30 acho que é tempo de começar a inventar outras ambições.

Se tivesses direito a 3 coisas para dizeres ao mundo inteiro, o que dirias?
Primeiro, dizia que temos que acabar com todo e qualquer preconceito. Depois, dizia que devemos basear-nos mais no amor e colocar de lado a palavra ódio (que é uma palavra que eu detesto até escrever!). E, por fim, dizia a todos para verem menos televisão e passarem a ler mais. E depois de dizer uma coisa destas seria pouco adorado, provavelmente. Mas eu nunca fui de dizer só coisas bonitas (risos).
Para mais informações, podem consultar a página do Filipe.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

"Talvez os livros que amamos sejam um pátio de brincadeiras" - Vanessa Lourenço

"A cria negra de Felis Mal'ak" é um livro cujas personagens são nada mais nada menos que gatos. A autora, Vanessa Lourenço, revela, ainda, que este é apenas o primeiro volume de uma trilogia. 
Como surgiu a ideia de escrever "A cria negra de Felis Mal'ak"? 
Há alguns anos atrás, perdi de forma abrupta um gato preto que era muito importante para mim. Dizem que as grandes dores são mudas e é bem verdade e nessas alturas opto por escrever. Prometi ao meu gato que ele teria um legado, que se tornaria imortal e que as pessoas saberiam quem ele foi. E aqui estamos.

Quem é Felis Mal'ak? 
Felis Mal’ak é um grande gato cinzento tigrado. É também um Anjo gato com um enorme papel nesta aventura. Para saberem mais sobre ele, terão que ler o livro.

A Vanessa é formada em psicologia. Os seus conhecimentos nesta área foram postos neste livro ou nem por isso? 
Não. O que não significa que para algumas pessoas este livro não possa funcionar como elemento de certa forma catártico, ou de algum conforto. Ainda que possa haver um ou outro pormenor de ligação entre ambos, não foi de todo essa a motivação.

O livro já tem uma 2ªedição. Como se sente ao ver uma adesão positiva por parte dos leitores? 
De facto, o meu livro atingiu a segunda edição no espaço de poucas semanas, o que é sem dúvida um motivo de orgulho para mim. Sobretudo por perceber que o legado do meu gato preto toca o coração de cada vez mais leitores em Portugal e por esse mundo fora. 
Que mensagem tenta passar no seu livro? 
Sem entrar muito pela história em si, existem três parâmetros muito importantes que procurei inserir nesta aventura: a consciencialização das pessoas para o que são os desafios e dificuldades que os animais de rua enfrentam por esse mundo fora todos os dias, a criação de uma janela que permita às pessoas ver o mundo pela perspectiva dos animais e por último – mas não menos importante – oferecer uma alternativa à forma como encaramos a perda dos animais que amamos. Podemos escolher ver na morte um fim, ou apenas o início de novas aventuras.

Qual é a ligação que tem com animais, nomeadamente, com gatos? 
Eu sou uma amante de animais por natureza. Sempre fizeram parte da minha vida e não vejo a minha vida sem eles. Os gatos... os gatos são criaturas muito especiais, rodeados de misticismo. E tal como todos os outros animais que cruzam o nosso caminho, têm mensagens muito interessantes para todos aqueles que estiverem dispostos a ouvir. Neste livro, todos os personagens relevantes são baseados em gatos reais da minha vida, e possuem inclusivamente traços das suas personalidades. É a minha homenagem à forma como enriquecem a minha vida.

Pensa escrever e voltar a publicar algo que não esteja relacionado com gatos? 
Neste momento não, uma vez que “A cria negra de Felis Mal’ak” é o primeiro volume de uma trilogia, da qual me encontro neste momento a escrever o segundo volume. Mas de futuro, veremos.

A escrita é, na sua opinião, um importante vínculo na imaginação das pessoas? 
As pessoas gostam de contadores de histórias porque lhes permitem ter acesso a aspectos de si mesmos que a vida de todos os dias não permite experienciar. Uma boa história detém a capacidade de inspirar, de fazer sonhar, de fazer sorrir. E muitas vezes de fazer a diferença na vida dos leitores. Não porque não detenham em si mesmos essa capacidade, mas porque lhes oferece uma ferramenta para o alcançar. Talvez os livros que amamos sejam isso mesmo, um pátio de brincadeiras onde podemos por vezes libertar-nos do que a vida nos exige e alcançar um pouco da magia que tem para nos oferecer.