sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Aos meus Doutores

Mãe, tenho medo
Não me deixes sozinha, peço-te.
Mãe, estás mesmo a deixar-me ir?,
Eu até pensava que ia gostar de viagens de comboio
Mas, nesta, sinto-me perdida e insegura. 
Mãe, já cheguei.
Estou curiosa para conhecer o que me espera, 
Mas continuo com medo. 
Mãe, já não tenho medo, 
Pelo menos da praxe, é divertida!
E já gosto de Coimbra... até nem estou a ser mal acolhida. 
Mãe, hoje, conheci-os
São tantos que nunca vou saber o nome de todos
Mas tratam-me bem, eu juro que tratam! 
Já é sexta-feira e eu já nem quero ir embora. 
Mãe, agora tenho uma segunda família
E gosto muito dela porque tal como contigo
Sinto-me protegida aqui. 
Mãe, eles praxam-me!
E gritam quando as coisas não são bem feitas
E choram quando se ouve a Balada da Despedida do 5ºano jurídico 
Mãe, eles têm alma, dinamismo e convicção a correr-lhes no sangue 
E vestem-se de preto mas as suas almas são coloridas.
Mãe, começo a sentir algumas coisas mais fortes
E a culpa é deles, a culpa é deles
Que nos transmitem valores tão importantes. 
Mãe, isto passa a correr, 
Alguns deles já se foram embora
Isto é um ciclo que a cada volta traz uma nova geração e leva outra.
Mãe, eu já sei o nome de todos
Dos que foram e dos que ficaram e vão continuar a praxar-me
Mãe, quero muito que eles tenham orgulho em mim
Porque eu tenho muito orgulho neles
Naquilo que eles são e naquilo que eles me fazem ser.
Ai, mãe!, o meu coração nunca foi tão pequenino
Como quando nos abraçamos em círculo para ouvir a Balada. 
Sabes, mãe, esta parte bonita já está a acabar. 
Eles fizeram um bom trabalho, eu sei que fizeram...
Mãe, mãe, mãe. Mãe!, olha para mim!
Estou vestida de preto como eles, 
Ainda estou longe de ser como eles
Mas já amo a minha capa, porque eles me ensinaram a amar esta cidade.
Mãe, agora estou ao lado deles, de pé
Em vez de estar à frente, de quatro 
Mas continuo a admirá-los, a respeitá-los
E a olhá-los com orgulho, com tanto orgulho!
Mãe, agora eles vão embora...
Vão mesmo e eu nem consigo acreditar.
Lembras-te de eu ter dito que isto era um ciclo?
Ninguém fica cá para sempre e eles vão-se embora, 
Embora fique sempre em mim um bocadinho de cada um deles.
Mãe, olha só para eles, tão crescidos
Tão lindos e de malas feitas, prontos para uma nova aventura.
Ah, mãe, eu morro um bocadinho ao vê-los partir
Mas estou tão feliz por eles!
E desejo-lhes o melhor, o melhor do mundo.
E estou-lhes tão grata para toda a vida,
Porque se sou feliz aqui, se sinto os valores da cidade, se canto o hino com alma, dinamismo e convicção, se a minha capa é pesada, se a Balada me emociona, se sou uma doutora empenhada, se respeito cada bocado de Coimbra e da praxe .... a culpa é deles. 
E sabes, mãe, eles também foram um bocadinho de mãe para mim.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Feio dezembro


Este dezembro chegou. Algum dia haveria de chegar este dezembro do ano de 2016. Chegou, talvez mais cedo do que aquilo que eu mesma teria gostado. Ou talvez eu - que nada sou - desejasse que este dezembro nunca chegasse. E se calhar até que nenhum dezembro chegasse. É frio, eu sei. E ainda há outono aqui. Porém, é escasso em alegrias, sem o ser no seu antónimo. É que este dezembro é mais frio que os outros. Traz em si flocos de neve capazes de se entranharem no meu corpo e gelarem cada osso com que me construo e me faço gente. Este dezembro é frio e isento de qualquer pedaço de poesia. Este dezembro é o mês que eu não quero no meu calendário, é a minha menos querida forma de terminar um ano guloso. Este dezembro chegou, ainda agora, e eu - que nada sou, eu sei - só clamo que se vá o mais depressa possível. E acrescento até um "por favor".

domingo, 27 de novembro de 2016

O fomento da arte ou o desvalor da mesma?

Anda por aí a vaguear a notícia de que os museus passarão a ser grátis aos domingos e feriados de manhã - com outros pormenores que por aí escreveram e que agora não interessam nada. A gratuitidade dos museus - ainda que apenas nas manhãs dominicais - parece estar a agradar aos leitores dos media portugueses, bem como aos amantes de museus, arte e património.
Fomentar a arte e a cultura deve sempre ser prioridade de qualquer governo - não tem sido - porém, mais do que qualquer outra área, a cultura deve ser valorizada - também não tem sido como deve ser - e esta medida, embora possa promover a cultura também pode ser apontada como uma desvalorização à mesma. Oxalá não seja, mas a verdade é que ninguém preza da mesma forma uma coisa que lhe foi oferecida gratuitamente e uma coisa que exigiu de si algum - ainda que simbólico - esforço (financeiro). 
E é mais que óbvio que o governo deve facilitar o acesso à arte e os museus são verdadeiros cofres de arte. Porém, que se tenha sempre em consciência o valor que pode aqui estar a ser colocado em causa. 
Na sociedade portuguesa é cada vez mais típica a preguiça em pagar para aceder à arte, as mentalidades nacionais continuam a pensar que os artistas não devem ser pagos, porque ser artista não é profissão nenhuma, porque isto e aquilo. É preguiça, é mesmo preguiça. Por que razão deve a arte ser gratuita? A resposta é simples: porque é desvalorizada. Somente quem entende o valor artístico pode compreender o quão justificável é que esse mesmo seja recompensado. 
Quem gosta de comida, paga para ir a um bom restaurante, tal como quem gosta de moda, paga para adquirir as roupas e acessórios, e quem gosta de futebol, paga para assistir aos jogos; e ninguém se importa, ninguém se queixa. Porque gostam, porque veem os gastos como um investimento - uma despesa que nos traz felicidade chama-se investimento. Então, invistam na arte, se a apreciarem. Só não exijam gratuidade neste campo, quando não a exigem noutros, independentemente de se estar aqui a falar de algo diretamente relacionado com o Estado. 
Têm grande lógica os descontos - para estudantes, desempregados e reformados - mas o carater gratuito revela aqui uma pincelada de desprezo e isso não pode ficar silenciado. 
Ainda assim, que tais palavras aqui escritas o tenham sido erradamente para que a desvalorização mencionada não exista. Acima de tudo, aprovem-se as medidas que se aprovarem, que se preze sempre aquilo que de mais especial um país pode ter: a arte. E com ela, a cultura e o património.

sábado, 26 de novembro de 2016

Quem Quer Ser Arouquense?

Uma vila pacata, longe dos olhares da comunicação social, quase invisível no mapa português e de nome desconhecido para a maior parte do país. Esta era Arouca. Era. Já não é mais. E os motivos da "revolução" são bem diversificados. 
Pode falar-se primeiramente de um clube de futebol que deu os primeiros pontapés nos media por ser treinado pelo apresentador de televisão Jorge Gabriel. Um clube que, alguns anos depois, sem espaço para grandes loucuras e através da competência dos envolvidos, conquistou a primeira liga, e se atreveu, inclusive, a pisar a liderança da mesma (quando venceu o Benfica, em agosto de 2015). Para, três épocas depois, marcar presença na Liga Europa.
Inevitável seria não falar também de uma construção de madeira que acompanha as margens do rio Paiva ao longo de 8kms e que se tornou um fenómeno para todos os curiosos e amantes da natureza. Os Passadiços do Paiva foram um contributo fulcral para colocar "Arouca na Moda", desde os inúmeros artigos publicados nos mais diversos blogues, às infalíveis hashtags e fotografias partilhadas nas redes sociais, passando naturalmente pela imprensa e televisão
Por menos bons motivos, Arouca salta para o panorama noticiário português por ser a naturalidade e transitório esconderijo do homem mais procurado de Portugal, que, sendo acusado de provocar mortes, sequestros e furtos, foge desembaraçadamente às autoridades, durante quatro semanas, acabando por se entregar...onde? Exatamente, em Arouca, para onde correm novamente todos os órgãos de comunicação social. Entre diretos e exclusivos, a palavra "Arouca" é proferida incontáveis vezes para todo o país, (e mundo, através da RTP Internacional). 
É verdade que Arouca sempre foi privilegiada pelo seu património cultural, natural e gastronómico - sempre tão ricos-, no entanto, nunca, nos mais recentes anos, foi tão falada e conhecida e visitada como nestas últimas dezenas de meses. 
Seja pelos frequentes eventos da terra ou pelos cobiçados Passadiços do Paiva; seja pela vitela de Raça Arouquesa ou pelos doces conventuais; seja pela procura e entrega de Pedro Dias ou pelo turismo - sempre tão promovido; seja por concentrar os mais preocupantes incêndios do país ou pelo Futebol Clube de Arouca; Arouca é incansavelmente discutida e já mostrou não ter impedimentos para, de alguma forma, se integrar no agendamento dos media e estar na ordem dos assuntos do dia. E dos meios de comunicação social às conversas de café e de rua a distância é pequena. Se antes quando se dizia que se era de Arouca isso nos obrigava a explicar que o concelho "é uma vila que pertence ao distrito de Aveiro mas é mais perto do Porto", hoje em dia, quando se diz que se é de Arouca não são precisas mais explicações, independentemente de se estar no Norte, Centro ou Sul de Portugal. 
Afinal, o que aconteceu com esta localidade do Douro Litoral? Como é que em escassos anos alcança um estatuto de conhecimento tão elevado? As coisas acontecem. E aqui não foi só uma nem duas, foram várias. E foram concentradas. Se se irão continuar a suceder?, não há como pressagiar. Tal como é também impossível de prognosticar se, daqui a meia dúzia de anos, já todos se esqueceram de onde é, como é e o que existe em Arouca. 
E mesmo que apareça um pouco conhecido jornalista para dizer que Arouca é uma terra feudal - saber-se-á lá porquê - o certo é que, por agora, "Arouca é moda", como dizem por aí. Embora todos saibamos que nenhuma moda dura para sempre, não é verdade!?

Crónica da edição de novembro do Roda Viva Jornal 

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Amo o Campo, mas sou da Cidade.

É verdade que cresci junto às margens do rio menos poluído da Europa e que a natureza sempre me inspirou e me fez feliz. Sempre fui da aldeia, mas sempre amei a cidade. Pela sua imensidão de luzes, pelo barulho dos carros, pelo tão simples acesso à arte e à cultura, pelo stress do dia-a-dia, pela sua dinâmica tão mais viva que a da aldeia. Hoje, sei que, como em todos os dias da minha vida, desde sempre, amo a aldeia e o campo, mas sou da cidade. Sou-lhe pela forma como me entrego e a abraço em mim, pela forma como lhe dou de mim e me envolvo nas suas iniciativas. E continuo a ser grande apreciadora da aldeia e do campo, a amar o rio e a serra, a gostar do descanso ali proporcionado. Mas hoje sei que não posso voltar às costas à rotina da cidade, à azafama de um dia-a-dia agitado, onde se corre contra o tempo, mas há tempo para um café de final de tarde, numa pastelaria do centro da cidade, onde o cheiro do pão acabado de sair do forno não cessa. E há tempo para ir ao cinema, ao teatro e a todos os espetáculos que nos incubem interesse. E sou da cidade, seja uma grande ou uma mais pequena, seja uma industrial ou uma mais cultural. Sou da cidade porque quero e porque é onde me sinto em casa, embora não viva sem a aldeia e tudo o que a esta está ligado, mas sou da cidade.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Outono e ruas

Está tão bonita a rua, escondida pelas folhas, que, em jeito de rebeldia, se soltaram das árvores. 
Está tão bonita a rua, pela manhã, quando ainda não foi varrida. 
Está tão bonita a rua, sobre a qual posso caminhar enquanto pontapeio folhas. 
Está tão bonita a rua. 
Por favor, olhem todos.
Demora um minuto, ou cinco segundos. 
Tudo depende da intensidade e entrega do olhar.
Mas está tão bonita a rua, agora molhada pela chuva. 
Está tão bonita a rua. 
Transmite delicadeza e amor.
Transmite paz e felicidade.
Está tão bonita a rua.
Eu juro que a rua está tão bonita.


sexta-feira, 21 de outubro de 2016

21 de outubro, 15:31

Gosto de estações de comboios. Acho que gostaria de qualquer forma, mas Coimbra tem-me permitido fomentar este pequeno amor. Gosto de estações de comboios ao ponto de sair propositadamente uma hora mais cedo de casa só para ficar na estação, a observar e a sentir o contexto e o ambiente. 
Gosto do som das malas a deslizar pela linha, dos telefonemas a dizer a hora de chegada, das despedidas, dos reencontros. E gosto ainda mais quando estou de caderno e caneta na mão a registar tudo isso. 

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Posturas

A nossa passagem é sempre mais curta do que aquilo que gostaríamos. Embora poucos admitam um desejo de eternidade, muitos são os que acrescentariam, se pudessem, décadas de anos aos que lhes estão destinados a viver. E somente a sensação de que se viveu intensamente pode aliviar a dor do pensamento de morte/fim. Não, não se consome todo o desalento, o fim é algo que, não só na vida, nos transtorna e nos desassossega de forma inevitável. No entanto, a entrega cedida aos momentos e o vivenciar cada um intensamente são formas de amenizar as feridas do adeus - ou do medo dele. E são também posturas que em muito contribuem para a felicidade e satisfação pessoais. 

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Começou para acabar

Começou para acabar. Não é o que acontece com tudo? Tudo o que começa, acaba. Não é que comece exatamente com o fim único de terminar um dia, porém, é a primeira e maior certeza que podemos possuir em qualquer contexto e circunstância. Tudo tem um fim. É a lei da vida, a própria também o tem: a morte. Tudo tem um fim, mas há fins mais dolorosos que outros. Não vacila a consciência de que esta é "a ordem natural das coisas". Contudo, a determinação do pensamento é incapaz de amenizar o pânico do adeus - essa palavra tantas vezes pronunciada e da qual todos querem fugir. Há "coisas" que nos marcam profundamente, pelos mais variados motivos, mas principalmente porque nos mudam, tornando-nos melhores seres humanos e pessoas mais felizes. E por mais intensamente que se viva cada momento não há nada que apazigúe a dor de sentir o fim aproximar-se. O prazo é curto e as saudades são precoces. Somos tão fortes e tão frágeis quando nos deixamos sentir. Mas a vida vale a pena. As alegrias compensam pelo prazer proporcionado. E a vida desenrola-se em dois culminares: prazeres e dores. E há claramente prazeres que provocam dores e dores que proporcionam prazer. Aqui é assim. É tudo muito triste porque é tudo muito bom. Aliás, é melhor que bom, é tudo tão perfeito, tão maravilhoso... E por isso também é tudo mais que triste, é desolador e horripilante. E por isso mesmo acabando, é tão gratificante ter existido!

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Fome de outono

Estou esfomeada pelo castanho das folhas das árvores e pelo som da chuva a cair. Estou esfomeada pelos dias curtos, pelo anoitecer precoce. Tenho fome de botas e casacos quentinhos. Tenho fome do outono, a única estação idónea de me saciar plenamente. A estação das paisagens bonitas e das minhas roupas preferidas. A estação mais acolhedora de todas. O calendário já lhe deu início, porém, a natureza ainda não. E eu, que a amo incondicionalmente, perdoo-lhe o atraso, que a cada dia que passa aumenta a minha fome. E tenho sede de uma bebida quente, enquanto me enrosco no cobertor de um sofá. E tenho sede da chuva a fazer-me companhia no percurso de casa até às aulas. 
Para mim, o outono é a estação do amor, da paz, da felicidade, do convívio, da tranquilidade, do conforto, enfim, de tudo o que é bom e tendo a apreciar. É a época mais linda do ano, a que mais delicia o nosso olhar e nos aquece o coração - pelo menos o meu aquece. 
Estou esfomeada pelo outono desde que ele terminou. Tenho passado os últimos meses insaciada e vejo-me agora perto da saciedade. 
Daqui a alguns minutos, é outubro. Outubro é sinónimo de outono, até as primeiras três letras são iguais. Ambas as palavras remetem para o cair das folhas, para as árvores despidas, para  os dias curtos, as primeiras chuvas e o desabrochar do frio. E é tão bom o frio que o anseio descontroladamente.  
Tenho fome de outono. Sinto-lhe o aproximar e desperta-se em mim o prazer da excitação. O outono está aí à porta, e a minha sempre esteve aberta à sua espera.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Pensamento/s do dia

Há dias em que acordo com vontade de escrever, não necessariamente de ser escritora - termo com o qual estou longe de me identificar - mas de escrever e fazer da escrita vida.
Há dias em que acordo a querer ser atriz e fazer do teatro vida. Formar uma Companhia e percorrer o país a apresentar peças diversas da minha autoria. Casar com o teatro. 
Há dias em que acordo a querer ser fotógrafa. Acordar antes do nascer do sol e colocar-me em sítios e posições de risco para fazer uma boa fotografia. 
Há dias em que acordo com o sonho de ser realizadora de cinema, de fazer filmes e metragens. 
Há dias em que me sinto fascinada pelo jornalismo e me imagino numa redação, em deslocar-me com bloco de notas e caneta na mão, a entrevistar fontes e a recolher dados.
Há dias em que acordo e não me apetece fazer nada, não me apetece sair da cama, não me apetece tirar o pijama. Também tenho dias em que quero ser procrastinadora. 

quarta-feira, 20 de julho de 2016

(Triste) Pensamento do dia

Sou demasiado vazia quando me vacilam as personagens. Sou demasiado vazia quando a vida me obriga a ser somente eu. Talvez ninguém entenda que a arte me completa, que eu nunca me sentirei completa sendo apenas uma personagem. Recuso-me a viver uma só vida, a ter somente os meus sentimentos e desconhecer as emoções de outras realidades fictícias. Recuso-me a viver sem teatro. Porque, honestamente, eu elegeria a morte se me forçassem a negar personagens além de mim. 

quarta-feira, 13 de julho de 2016

E se não existissem sentimentos!?

Como seria a vida se não existissem sentimentos?
Como seria viver sem sentir? 
Como seria viver, estudar e trabalhar sem ambições, sem motivações?
Como seria apenas pensar, ter um só lado - o racional? 
Embora muitas vezes nos esforcemos por colocar o lado sentimental de fora e agir apenas em conformidade com aquilo que consideramos politicamente correto, a verdade é que se torna extremamente díficil imaginar um mundo sem emoções, sem sentimentos. 
Há quem defenda que são os sentimentos que nos guiam - "o sonho comanda a vida". Perante tal ideologia, somos vinculados pelas emoções que nos dominam, agimos de acordo com aquilo que o coração manda. Independentemente da veracidade de tal ideia, por mais racionais que sejamos, todos temos, uma ou outra vez, momentos em que a razão vacila e em que somos confrontados com uma realidade mais emotiva. Já todos vivemos momentos em que agimos por impulso, em que pensamos com o coração, em que seguimos os sentimentos. 
Se não existissem emoções, não havia medos nem desilusões, não havia amores nem ódios, não havia alegrias nem frustrações, não havia esperanças nem angústias, não havia egocentrismos nem saudades, não havia agressividade nem tédio, não havia inveja nem gratidão, não havia vingança nem solidão. Não havia nada ou havia alguma coisa?
Não havia nada ou havia alguma coisa!? É utópico responder a esta indagação. Nunca se decifrará como seria viver sem sentir, uma vez que por mais esforços que existam em prol de esquecer os sentimentos, eles estão sempre presentes, até quando pensamos que não estão, e a sua presença é notória em cada pequena atitude e pensamento que adotamos. 
Uma coisa é certa: somos complexos porque somos dotados de sentimentos. No entanto, também não é possível afirmar que sem sentimentos a vida seria mais simples. 

quinta-feira, 7 de julho de 2016

O Esplendor de Portugal

Silêncio que se vai cantar "A Portuguesa". O sonho português permanece aceso. 
Os ecrãs deixam transparecer parte dos nervos sentidos em campo, porém, há esperança em cada 11: nos 11 jogadores em campo e nos 11 milhões de portugueses que, como sempre, acreditam. Se Portugal vencer vai à final, e poderá, então, ter a desforra desejada desde 2004.
O jogo começa da mesma forma de grande parte dos jogos da seleção neste campeonato - apagado. Apesar de ter sido o primeiro a rematar - aos 16 minutos - Portugal não conseguiu marcar golos, na primeira parte do jogo. 
O País de Gales não esteve melhor. O resultado final desta primeira parte ficou, nada mais, nada menos que 0-0. Um 0-0 equilibrado, que - relembrando os anteriores jogos deste Euro - poderia muito bem manter-se até aos 90 minutos. 
Tal não aconteceu. O Portugal da segunda parte em nada se assemelhava ao Portugal da primeira parte. Aos 49', Cristiano Ronaldo - que bem faz por merecer o título de melhor do mundo - marca, de cabeça, deixando Portugal em vantagem. 
A situação de vantagem - a que Portugal pouco habituado tem estado nestes jogos - acentuar-se-ia quando, três minutos depois, Nani marca o segundo golo. 
Mais do que em qualquer momento neste Euro, o país acredita na Seleção e anseia a final. Afinal de contas, ainda há mesmo contas por ajustar, desde há doze anos atrás. 
À medida que os 90' se aproximam, as garantias de que Portugal vai estar - mesmo! - na final aumentam.
E não é que Portugal - por incrível que pareça neste campeonato - chegou aos 90' sem estar empatado!? Chegou aos 90' em vantagem. E, melhor ainda, chegou aos 90' a garantir o seu lugar na final. 
Portugal - que na fase de grupos até que andou a brincar - prova assim merecer ganhar. Oxalá, a história se repita no próximo jogo. Oxalá, dia 10, Portugal volte a merecer vencer - e vença! 
Que esta nação continue "valente e imortal" e que se levante - agora sim - "o esplendor de Portugal"!

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Pensamento do dia (ou divagações da madrugada)

É díficil percecionar os momentos, no momento. Nem sempre é explícita a explicação de atitudes e palavras que outrora usamos. Porém, o tempo passa e deixa ficar evidências. No momento, sentimos a sua força. Depois do momento, percecionamos a sua força. Nada é dito por acaso. Nenhuma ação é por acaso. O tempo é mágico. E o mais bonito é que a vida também. 

domingo, 3 de julho de 2016

Não há poesia no verão

O sol queima. Há chapéus, vestidos coloridos e fruta nos pomares. A sombra torna-se prazerosa. Os corpos mergulham na água da piscina e do mar. E outra água se dá a bebés e idosos, para que não desidratem. Há quem delire com o escurecer da pele e o clarear dos cabelos; há quem delire com o calor das longas noites de verão; há quem delire pelas festas, pelas férias, pelos dias solarengos. Tudo muito lindo. Mas tudo tão vazio. O verão, de todas as estações, é talvez aquela que menos magia tem, sendo tantas vezes e por tantas pessoas sobrevalorizado. Não existe a magia da paisagem coberta dos diversos castanhos das folhas que as árvores largam, como existe no outono. Não existe a poesia do desabrochar das flores e da chegada dos primeiros raios de sol, como existe na primavera. Não existe a neve e o frio que nos atiram para um sofá com um cobertor e um filme, nas tardes de domingo, como existe no inverno. O verão engole-nos na sua monotonia. Veja-se ao ponto a que chegamos quando se passa um ano inteiro a ansiar pela "rotina de verão"; nunca uma rotina há-de ser algo de fascinante, é, por outro lado, entediante! Olá verão, era isto que queria dizer-te: és entediante. Engraçado, nos primeiros tempos, mas com o passar dos dias tornas-te insuportável para os apreciadores de poesia. É complexamente penoso encontrar em ti poesia e isso, desculpa, mas é indesculpável. Onde já se viu uma estação do ano escassa em poesia!? Gostava de te apreciar, uma e outra vez, de desfrutar plenamente daquilo que ofereces. Porém, o que proporcionas, além de um calor abrasador!? Dias mais longos? Eu prefiro a noite. Calor e menos roupas? Eu gosto de sentir frio e de usar muita roupa. Festas? Prefiro o sossego de casa. Férias? Eu gosto de trabalhar. Rotina? Não suporto rotinas. Somos incompatíveis, querido verão. Tu ofuscas a poesia e eu vivo por ela.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

A música como uma luz no escuro (Entrevista com Ana Domingues)


Ana Domingues é uma estudante de Comunicação Social, em cujo gosto pela música desde cedo se manifestou. Essa paixão foi o motor principal para a sua presença na banda "The Lights In The Dark"- uma banda de rock - da zona de Leiria e na qual Ana é guitarrista e faz segundas vozes. 
Ana considera a música uma luz, embora esta seja muitas vezes menosprezada em Portugal. Isso levou a que a sua banda se submetesse, numa fase inicial, a "explorações". 


Há quanto tempo existem os "The Lights in The Dark" (TLITD) e como tudo começou? 
Os The Lights In The Dark surgiram há quase 2 anos (vão comemorar o 2º aniversário a 3 de julho). A nossa primeira vocalista (Mariana Pedrosa) já tinha falado comigo relativamente à formação de uma banda. Os rapazes também já andavam a planear um novo projeto musical, de originais. Como já nos conhecíamos todos por andarmos na mesma escola, foi quase como um “click” automático. Apercebemo-nos de que só nos faltava uma teclista e a Mariana lembrou-se da Maria Marques (a nossa primeira teclista). Foi um processo simples e rápido. Desde logo, as coisas correram bem, obviamente com erros ao início que foram sendo trabalhados, mas acabámos por dar o nosso primeiro concerto em setembro.

De onde surgiu a ideia para o nome? 
O nome foi algo complicado, todos tínhamos gostos e obviamente personalidades muito distintas. A Maria foi quem sugeriu este nome e na altura sugeri que como “imagem de marca” da nossa banda caso ficasse este nome poderíamos usar pulseiras de néon, assim, se as pessoas não memorizassem o nome, memorizavam algo relacionado connosco. Traduzindo, “as luzes no escuro”, tinham também que ver com o facto da importância da música, e de para nós ser como que um abrigo, uma luz…

A música desde sempre foi uma paixão para ti? 
Sim, desde que me lembro sempre tive uma paixão enorme pela música. Também desde muito cedo percebi que cantar não era o meu forte! (risos)
Com 4 ou 5 anos queria aprender a tocar violino, depois flauta transversal e depois começou o meu amor pela percussão. Mas o único instrumento que tenho relacionado com esta é um jambé. Desde pequenina adorei guitarras, e comecei a aprender a tocar com 14 anos. Ainda assim, se um dia tiver uma bateria e aprender a tocar, vou ser uma pessoa muito mais feliz e realizada!

Preferes músicas portuguesas ou estrangeiras? Porquê? 
Isso é muito relativo. Confesso que atualmente oiço mais música estrangeira, mas isso não quer dizer que não goste da portuguesa. De pimba não gosto de certeza, não é de todo o meu estilo, e tenho muita pena que nos programas de televisão só passe esse tipo de música juntamente com as brasileiradas e com o kizomba. Há músicos com bastante qualidade em Portugal, mas as pessoas aqui são bastante “comerciais”. Portugal tem muito talento a nível musical. E não falo só a nível do tipo de música que consideramos como património, e única no mundo – o fado – mas sim a nível de música clássica e também música mais alternativa como por exemplo, o indie

Achas que a música portuguesa é menosprezada? 
Sim, sem dúvida! Para já, porque a maioria das pessoas não conhece música portuguesa de qualidade, porque como referi anteriormente, o tipo de música que os meios de comunicação passa não são os melhores. Mas para além disso, acho que a arte no geral é um bocado menosprezada. E nós, nos The Lights In The Dark conseguimos notar isso por exemplo por nos pedirem constantemente para baixar os preços ou para fazermos “um preço amigo”. As pessoas não pensam em todo o trabalho e todo o tempo investido para no final se ter 1h30 a 2h de concerto. Parece tudo demasiado fácil e simples. 

No mundo da música e, nomeadamente, para quem está a começar quais são os principais problemas que surgem? 
Acho que um dos principais problemas são mesmo os custos que a música implica. E o público em geral não pensa nisso, ou nem tem a mínima noção. As aulas são caras. O material é caro, e normalmente não se compra só o instrumento. Há sempre acessórios. Desde palhetas e cabos a amplificadores. Desde simples baquetas a pratos de centenas de euros. Os TLITD, tiveram de investir numa mesa e num sistema de som, bem como noutros materiais mais básicos (cabos, microfones), para terem condições mínimas para poderem dar um concerto, fora os investimentos pessoais e de manutenção, e ainda assim há pessoas que ou pedem para baixar o preço ou pedem concertos de graça. Não têm noção das horas que se perdem a ensaiar, nos investimentos monetários, em combustível gasto no transporte para todos os ensaios e concertos… Outro problema para algumas pessoas é o tempo. Tocar um instrumento é algo que exige principalmente na fase inicial, muita dedicação e muito treino. E às vezes, por mais que se goste daquilo que se faz é complicado arranjar tempo para as várias atividades que se têm.

O que fazem os TLITD para ultrapassar esses problemas? 
Inicialmente tivemos de nos submeter um bocado à “exploração” porque para “vendermos” o nosso produto (a música), tínhamos de a mostrar. O que quero dizer com isto, é que quando começamos as pessoas obviamente não nos conheciam, não sabiam se tocávamos e cantávamos bem. Por isso, inicialmente, submetemo-nos a uma série de concertos de graça, ou quase sem ganhar nada para publicitar a nossa banda, darmo-nos a conhecer... À medida que fomos ganhando algum nome, que fomos divulgando a nossa página do facebook, dando cartões de visita e à medida que partilhámos alguns vídeos fomos começando a ser pagos e minimamente conhecidos na nossa zona.
The Lights In The Dark
Como somos 6 membros: Simão-guitarrista, Ana-guitarrista, Thierry-baterista, Rudi-baixista, Dina-vocalista, Carolina- teclista; nem sempre é fácil conciliarmos a diferença dos nossos horários com as nossas atividades. Tentamos marcar os ensaios para um dia que dê para todos, até às últimas semanas esse dia era ao sábado mas provavelmente agora nas férias os ensaios vão passar para a segunda à noite porque há pessoal a trabalhar…Mas basicamente tentamos ter um dia de ensaios fixo e tentamos não marcar mais nada para as horas que costumamos estar a ensaiar.

Consideras que vale a pena ser artista em Portugal? 
Como diria o nosso “amigo” Fernando Pessoa, “tudo vale a pena, quando a alma não é pequena”. Mas isso parte um bocado de cada um. Depende se consideramos isso do ponto de vista monetário, ou do ponto de vista de fazermos algo que gostamos. No primeiro ângulo de abordagem, a resposta é que é difícil. Se entramos no mundo da música só pelo dinheiro é complicado. Porque a indústria da música em Portugal não partilha com os portugueses alguns tipos de música, ou artistas mais recentes. Bandas jovens de rock e metal, por exemplo, são menosprezadas. Vemos é vários artistas a solo, cantores mais comerciais… e como já referi de pimba, de Kizomba… Porém, se nos considerarmos artistas por fazermos algo que gostamos, aí sim vale a pena! Até porque eu acho que o dinheiro é como que apenas uma parte de ser artista. É algo que vem por acréscimo e como já referi no exemplo dos TLITD não é algo que aparece logo. E quando finalmente começamos a ganhar dinheiro nos concertos na maior parte das vezes e para a maior parte dos membros dos TLITD e de outros músicos são para investir em material de forma a melhorar o nosso som e a nossa qualidade musical. O importante é estarmos a desfrutar do momento, sem nos preocuparmos com nada. Somos nós, a música e o público. E quando há uma forte interação, aí sim, sentimos que vale a pena. Todo o esforço, todos os investimentos, todas as horas de trabalho e motiva-nos muito para continuar.


Quais são os objetivos que a banda pretende alcançar? Já delinearam alguns?
Inicialmente, a nossa banda pretendia compor vários originais. Nos nossos primeiros concertos, tocávamos só covers, até que começamos a escrever e compor alguns originais que depois tocávamos também nos nossos concertos. Tivemos 6 originais prontos a tocar e mais 2 ou 3 escritos. Entretanto quando a Mariana saiu da banda e a Dina entrou, ainda não houve o tempo necessário para rever e reconstruir todos esses originais, já que estes exigem muito tempo e envolve todo um processo complexo. Como desde a entrada da Dina fomos tendo vários concertos, e a maioria entrou para a universidade (o que afeta aos ensaios, que por vezes se realizavam em tempo de aulas) acabámos por nos focar em covers principalmente de música rock.
Penso que os nossos objetivos são comuns à grande maioria dos artistas: fazer aquilo que gostamos e fazermos as outras pessoas divertirem-se com aquilo que fazemos. Obviamente pretendemos evoluir, e sair um bocado da zona de Leiria. Seria excelente dar concertos noutras zonas de Portugal e partilhar a nossa paixão por aí!
TLITD, durante um concerto
A nível pessoal, pretendes continuar a conciliar a música com outra atividade, nomeadamente na área da comunicação social, tendo em conta que é o curso que estás a tirar, ou gostarias de viver da música? 
Pretendo conciliar a música com a comunicação social. São duas áreas das quais gosto muito e como já referi, viver da música como música/artista em Portugal ainda é complicado! Espero futuramente quando acabar o curso, arranjar um emprego na área e simultaneamente continuar ligada à música. Após este primeiro ano no curso, percebi que é mesmo o que quero e o que gosto! Uma vez que o curso se expande em duas vertentes vou seguir a que está ligada à produção de conteúdos e quem sabe, daqui a algum tempo até posso relacionar isso com a minha banda! Mas ainda assim, não gosto de ver a música como trabalho. A música é algo que me distrai, algo que me faz feliz, é o meu abrigo ou a minha “luz no escuro”, é algo que me permite estar com os meus amigos e divertir-me é algo que me permite ser outra pessoa, faz-me soltar e não ter vergonha, mostro o meu lado mais selvagem embora nem note isso, faz-me viver o momento e tocar cada acorde como se fosse o último, faz-me sentir tudo de forma muito intensa... E quero continuar a vê-la assim. Quero (mesmo muito) continuar com os The Lights In The Dark, porque para além de sermos uma banda, de sermos colegas e músicos, somos amigos e acho que essa empatia é evidente em palco! 


quarta-feira, 29 de junho de 2016

(Ir)realidades

E se nunca tivesses nascido? Se nunca tivesses existido? 
Já paraste para pensar como estaria agora a tua vida se num ou noutro momento tivesses tomado outras decisões e atitudes em vez daquelas que tomaste? 
Se tivesses vivido noutro lugar, se tivesses andado noutra escola e conhecido outras pessoas, se tivesses escolhido outro curso, se nunca tivesses pisado determinada cidade... Já paraste para pensar como seria se as pessoas que existem na tua vida e são importantes para ti nunca tivessem cruzado os seus caminhos com o teu?
Olha para a vida que tens e imagina o quão diferente poderia ser. Melhor? Pior? Impossível saber. 
O peso das decisões que tomamos é avassalador, pequenas opções podem determinar o rumo da tua vida. Vê só o tamanho da responsabilidade que é viver. Ter de tomar conta de uma vida, ser responsável total por uma vida - algo tão precioso. 
Todos os dias, somos forçados a agir. E cada pequena atitude é um atalho ou a estrada principal para algo. 
Todos os dias, vemos, sentimos e vivemos. Todos os dias, podemos fazer algo diferente com a nossa vida. 
É assustador olhar à nossa volta e imaginar no quão diferente tudo podia estar. 
Aquela pequena decisão que tomamos hesitantemente mas que hoje é a mesma que confere sentido à nossa vida. Aquela grande decisão que tomamos e não devíamos ter tomado porque nos levou à ruína. Todas as decisões que já tomamos não deixam de ser curiosas. Como seria se não as tivéssemos tomado? 
É este mistério, este pânico, esta sensação de "E se..." que se torna fascinante e que é motor de pensamentos profundos e divagações constantes. E é isto que é viver. 
No entanto, surge a questão "Será que tudo depende mesmo de nós?". Às vezes, acontece tudo de forma tão estruturada que somos confrontados com a palavra 'destino'. Existe, não existe? Manda mais que nós, manda menos? E as coincidências? Acreditamos, não acreditamos? 
E é aqui que reside a permanência do fascínio. 

terça-feira, 21 de junho de 2016

Pensamento do dia

O verão começou há apenas algumas horas e eu estou cansada. Será que o verão me recebe da mesma forma? Estará o verão, tão velhinho, cansado de toda esta rotatividade das estações do ano? O meu cansaço está cada vez mais gasto. Por vezes, assemelha-se a um cansaço intelectual. Não sei se o é, mas sei que físico não é certamente. E a minha mãe concordará. É que eu não faço nada. Podia acordar cedinho para ir correr, mas nem isso. Podia arranjar um emprego de verão, mas ninguém parece precisar de mim. Devo, essencialmente, estar cansada de pensar e formular teorias que depois reformulo e se encontram em constante estudo. Esta minha mania de ser pensante. Não sei até onde ela me vai levar, para já, intensas dores de cabeça e um cansaço estonteador. Obrigada, era tudo o que eu mais queria para este primeiro dia de verão. 

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Arouteatro: "formar todos os que amam o teatro e que não querem ficar só pelo lado amador"

Sérgio Ribeiro
Arouca, terra onde o associativismo é, desde sempre, uma palavra bem conhecida das suas gentes, tem agora uma nova associação - Arouteatro - que aposta na formação teatral. À frente deste projeto, está Sérgio Ribeiro, estudante de Teatro e Artes Performativas, na Universidade de Trás-Os-Montes e Alto Douro (UTAD). 


De onde surge a necessidade de criar uma associação que visa formar atores?
Desde pequenino, que gosto e faço teatro e então tive sempre o objetivo de obter formação nesta área. Após vários anos de procura, cheguei à conclusão de que Arouca não tem qualquer escola ou grupo capaz de satisfazer a necessidade da educação na área do teatro. Se quisesse aprender algo mais teria de me deslocar para cidades próximas. 

Qual o papel que desempenha o teatro nas sociedades portuguesas? 
A sociedade portuguesa gosta de ir ao teatro. Talvez para esquecer os seus problemas por alguns minutos, para se rirem ou até mesmo para aprenderem algo novo. E o teatro é mesmo isso, não só uma maneira de expressar mas também uma maneira de ensinar, de entreter e de ajudar o outro. 


Quais os principais objetivos para o projeto Arouteatro? 
O principal objetivo do projeto Arouteatro é formar todos os que amam o teatro e que não querem ficar só pelo lado amador. Dar conhecimento às pessoas das várias áreas existentes nesta arte, com a finalidade de mostrarem ao público toda a aprendizagem obtida. 

Como irá funcionar a associação?
A associação gostaria de trabalhar em todas as freguesias que quisessem aderir a esta formação. 
O objetivo é criar algumas ‘turmas’ por faixas etárias e dar formação a elas mesmas e ter como produto final um espetáculo aberto a todo o público. 

O que aprendeste na licenciatura que irás aplicar no projeto?
Bom, o teatro é uma aprendizagem constante que requer sempre pesquisa e mais pesquisa. É claro que muitos exercícios, muitas teorias que aprendi na licenciatura irei aplicar no projeto mas não me ficarei só por aí. Irei também aplicar exercícios novos consoante o grupo e as suas necessidades de aprendizagem. 

Como é que a população arouquense olha para o teatro e em que medidas costuma aderir?
Cada vez mais a cultura em Arouca está a ser desenvolvida. Cada vez há mais concertos, filmes, exposições e teatros no concelho. O público arouquense adora a arte e por isso sempre que pode está presente nesses eventos, tanto como público como participante.

De que forma irá o Arouteatro enriquecer o concelho?
Desde já, esta associação me irá enriquecer tanto a nível pessoal/sentimental como também profissional. A troca de ideias enriquecerá não só os formandos como também os formadores. Juntos irão trabalhar para que o Teatro em Arouca tenha mais impacto. 
Que cada espetáculo apresentado dê sempre alguma moral e/ou conhecimento ao público. 

És o líder deste projeto. Liderar é para ti algo novo ou algo já habitual?
Sim, de facto escolheste bem a palavra. Um líder trabalha em equipa e é isso que nós somos, uma equipa. É a primeira vez que estou neste papel embora não me considere como tal pois a associação é um projeto de todos os envolvidos e conto com eles para juntos o levarmos para a frente. 

Quais são as expetativas relativamente à adesão dos arouquenses? 
Pelo que tenho reparado ao longo dos anos, o povo arouquense procura estar envolvido à Arte. 
Cada vez há mais jovens a querer seguir esta área assim como pessoas de outras faixas etárias com o gosto enorme pelo Teatro. Por isso, chego à conclusão que terá bastante adesão.

O que tens a dizer aos Arouquenses amantes das artes do palco?
O Teatro é uma paixão enorme e para mim é sem dúvida a Arte mais bonita. É bom poder ter novos sentimentos, ser novas personagens e viver novas ações. É bom partilhar isso ao público e receber as suas palmas que tanto enriquecem os atores. Teatro só é teatro graças ao público e sem dúvida aos atores. 
Por isso, convido todos os arouquenses que queiram partilhar este amor a juntar-se a nós, a obter a formação, a criarem a sua personagem de modo a se enriquecerem com as palmas do público.
Sérgio, na Recriação História de Arouca, 2015

quarta-feira, 15 de junho de 2016

"Artistas a Tempo Inteiro"

"Os músicos talvez envelheçam, os pintores talvez se tornem meio loucos, os poetas talvez se suicidem ou tornem-se outra coisa em outro lugar que não aqui, mas os atores e as atrizes de teatro, esses sim, nunca envelhecem, nunca param o sonho, têm sempre um sorriso aberto, o corpo esticado em expressões alegres e talvez nunca cresçam e deixem de ser eles mesmos. É o que se vê claramente nas fotos dos bastidores ou durante a arrumação do palco, diante do espelho enquadrado por lâmpadas incandescentes ou na saída para o bar após o espetáculo. Creio que até em suas casas, quem sabe até a dormir. São artistas a tempo inteiro. Percebe-se bem. Admiro-os."
- José Roldão 

Este texto, escrito por um não ator, deixa inevitavelmente transparecer uma grande parte da magia do teatro. Revela o quão especial é a arte de representar perante todo o enorme mundo das artes. Um palco não é um sítio qualquer. Uma fala nunca é simplesmente e apenas uma fala. E os bastidores são bem mais do que mostram os documentários e as câmaras escondidas. Talvez só outro artista consiga percecionar esta magia envolvente. Só um escritor seria capaz de descrever este pequeno grande mundo. É por isso que, ao ler este texto, qualquer ator ou atriz de teatro - por mais amador que seja - se sente percebido. Sente que existem outras pessoas capazes de constatar o fascínio que é o teatro. Sente que são notáveis as suas "expressões alegres" e o seu "sorriso aberto". Que o "sonho" é efetivamente relevante. E, acima de tudo, sente-se modestamente reconhecido. Um ator falar de teatro com todos os sentimentos é o esperado. Um não ator falar de teatro e dos sentimentos por este proporcionados, é motivo de reciprocidade na admiração. Obrigada, José Roldão, por este texto que aparentemente só um ator compreenderia. Mas, pelos vistos, somos todos artistas e a arte não é uma mensagem criptografada. 

sábado, 4 de junho de 2016

Masoquismo efervescente

Quando nos sentimos felizes quais são exatamente as sensações que nos dominam? Que estupidez querer exatidão quando se fala de sentir. 
Mas que coisa é essa da felicidade e por que razão há tanta gente a queixar-se da sua ausência? 
É que tristezas, desilusões, todos têm, todos expõem, todos partilham. E as alegrias, a sensação de felicidade não pode revelar-se por que razão? 
Sim. Nada dura sempre. Os momentos mudam. Os sentimentos à flor da pele não são sempre semelhantes. Os momentos de felicidade não são eternos. Os de desgosto também não. É por isso que a vida é tão especial.
Não obstante, se promovemos tanto as desilusões e infelicidades porque não valorizamos as - ainda que, por vezes, pequenas - alegrias? 
Somos pessimistas e masoquistas. Não aceitamos o que de bom a vida nos proporciona. Fechamos os olhos aos aspetos positivos como se eles fossem apenas ilusão. Não. Não são. Ilusão é acharmos que tudo o que é bom - só porque é bom - nos está a iludir. 
O mundo seria feliz se as pessoas se deixassem ser felizes. Se entregassem sem medos. Se libertassem das próprias amarras. Não temos porque não agarramos. Não sentimos porque não abrimos o coração. 
Todos os dias acontecem coisas boas e más. E se nada de mau acontecer é porque já foi um bom dia, ainda que rotineiro. Mas quantos de nós nos deitamos na cama, ao final do diz, e pensamos "este dia foi feliz, que bom viver."? Pois... Mas o "Hoje foi um mau dia" ninguém hesita dizer ou pensar. Não há mal nisso. O mal é não sermos equitativos. O mal é só vermos por metades. O mal é este apego ao masoquismo que parece crescer - nas sociedades - a cada dia que passa. Quase que vira moda. Antes, havia a vergonha de confessar uma depressão. Hoje, parece haver orgulho nisso. 
Casos não são casos, é certo. Porém, acusem-se aqueles que assumem a felicidade sem pudor, aqueles que se entregam à vida sem "ses". Acusem-se e eu calo-me. 

segunda-feira, 2 de maio de 2016

"A arte é capaz de mudar o mundo" - Hélder Antunes

Hélder Antunes tem 18 anos, vividos em comunhão com a arte. Faz teatro, ilusionismo, compõe músicas, escreve canções e poemas. Recentemente, publicou o livro "Amar é Viver", pois acredita que só se vive quando se ama. 
Com o autor, na apresentação do seu livro
És um artista. Nasceste assim ou trabalhaste para isso?

Creio que não nasci como artista, nasci sim numa família de artistas, o que fez com que, definitivamente, me torna-se mais um artista nesta família. Isso já me ajudou muito, sem esta família nunca iria ser o que sou, mas para além disso, foi preciso muito trabalho, muito esforço. Em todas as vertentes artísticas foi preciso aprender, praticar e acima de tudo ver muitos outros artistas, quer da família ou não. Digo que sou 50/50. Foi preciso a minha família e foi preciso o trabalho. Fico eternamente grato à minha família e ao esforço que fiz, quer por vontade própria, quer ouvindo “sermões” de professores, familiares e amigos que só queriam o melhor para mim.

Fazes ilusionismo, teatro, músicas e poemas. De todas as artes que dominas existe alguma que te seja mais especial ou estimas todas da mesma forma? 
Creio que as que mais estimo são as que quase nasceram comigo, isto é: a música e o teatro. Todas as outras são muito “recentes” (pintura, ilusionismo, poesia), daí ainda não ter o mesmo carinho, mas gosto imenso de as praticar e pretendo saber sempre mais sobre elas. A música e o teatro faço desde de que me lembro, isto é, desde que tenho consciência. Aprendi desde muito cedo música com o meu avô materno, juntamente com os meus irmãos, e exatamente como os meus tios também aprenderam. E neste começar nunca mais parei, estudando já música acerca de 12 anos. Acabei o 8º grau de música, o próximo passo seria já a universidade, mas ainda estou no 12º ano. Então a par com isto estou a tirar canto, que também adoro. Acho que não há um dia em que não vá ao piano, (só se não dormir em casa e que não tiver onde tocar). Relativamente ao teatro, comecei a assistir às peças de teatro que o GCRR (grupo cultural e recreativo de Rossas) fazia. Aos poucos, fui crescendo e fui participando nos meus primeiros espetáculos, começando apenas por desfilar em danças ou como figurante, depois, fui tendo pequenos papeis com uma fala ou outra, entretanto, comecei por cantar canções a solo e uma que me marcou muito e acredito que tenha sido o meu primeiro êxito foi a “Mula da cooperativa” que acho que cheguei a fazer umas 20 vezes no mínimo, e atualmente costumo ter papeis já razoáveis com bastantes falas e atuo com muitas pessoas com quem aprendi e considero modelos a seguir. Acho que conseguiria abdicar do ilusionismo, pintura e poesia de momento, mas do teatro e da música acho impossível, seria a minha morte psicológica. 

Dizes que a pessoa que mais te inspira é o teu tio. Gostavas de, um dia, seres uma fonte de inspiração para, por exemplo, um sobrinho? 
Sim, ser inspiração de alguém acho que é uma das melhores coisas que se pode sentir na vida, apesar de ainda não a sentir. Gostava de ter alguém, neste caso um sobrinho, que gostasse de ser como eu sou e fazer o que faço. Gostava de poder olhar para ele e ver que estaria a passar pelo que passei, que estaria a aprender o que aprendi e que estaria a sentir o que senti. Iria ser um grande orgulho poder ver, sentir e amar uma pessoa em que tudo o que ela queria era ser como seu tio (neste caso eu). De momento, o meu tio Miguel é o meu herói e só quero um dia ser metade do que ele é. Espero ser, futuramente, um tio como o meu tio. Tudo o que peço é que tenha assim um sobrinho e se tiver o que desejo para ele é ter, também no seu futuro, um sobrinho que o faça sentir o mesmo, para poder passar por papel de sobrinho e de tio, por outras palavras papel de lutar para ser herói.

"Amar É Viver" foi o nome que escolheste para o teu livro. Se invertermos a frase ela perde sentido ou também é legítimo afirmar que "Viver É Amar"?
Na minha opinião, perderia o sentido. Se não perde, fica com menos “cor”, transmite muito menos sentimentos/emoções. Acho que uma pessoa só vive a vida quando ama. Uma pessoa quando merece a vida, isto é, quando nasce, não vai definitivamente amar. Certamente o fará e certamente sentirá o amor na sua vida, na família, nos amigos, no trabalho, no seu companheiro(a) que será certamente o amor de sua vida. Mas isto não é certo, tanto pode acontecer como não, varia de pessoa para pessoa, daí muitas pessoas sentirem apenas ódio pelas outras e daí ainda haver muita guerra. Estes vivem, mas não amam. Agora no caso de “Amar é viver”, todos os que amam vivem! Porque o amar o próximo, amar as coisas e amar o que se faz, já é o estar a viver, aproveitando e saboreando a vida. Ao amar estão a dar cor à sua vida, estão a fazer com que valha apena. Ao viver, poderão não amar, e uma vida sem amor não é vida, é uma vida com tempo, com idade, no fundo, uma vida perdida. Logo sou a favor de “Amar é viver!” e não “Viver é amar!”.

Num dos teus poemas dizes: "E pensar é uma coisa/Que não devia fazer". Consideras que quem faz arte sente mais do que pensa? 
A autografar alguns livros (foto: município de Arouca)
Sim, sem dúvida. Até porque a arte em si surgiu, na minha opinião, toda de forma espontânea, surgiu sem antes ser pensada. Isto em todo o tipo de arte. No caso da música, quando estou a tocar, quase que não penso no que estou a fazer, apenas toco e a música flui por si e consigo senti-la. Se eu pensasse enquanto toco certamente que tiraria a “cor” à música, não transmitiria as mesmas emoções/sentimentos do que simplesmente estar a sentir o que estou a tocar. Acho que o verdadeiro artista é aquele que sente o que faz e que não se limita a fazer o que tem de fazer. Eu admiro mais um artista que sente do que um artista que atua. Dando mais um exemplo na música diria que prefiro ouvir e ver um músico que realmente está a sentir o que está a tocar, apesar de ter tocado algumas notas erradas, do que estar a ouvir e ver um músico que pode não falhar uma nota, mas que simplesmente não deu “cor” à música, não mostrou o que estava a sentir. Há uma frase de Beethoven que diz: “Tocar uma nota errada é insignificante. Tocar sem paixão é imperdoável." No fundo, adaptando para a arte no geral, eu acho que um artista deve focar-se na qualidade de sentir e não em ter a capacidade de conseguir fazer algo. Um artista é artista quando sente e não quando faz. 

As pessoas que te conhecem enaltecem a tua humildade. Consideras essa uma caraterística importante no mundo das artes? 
Sim. Acho que uma pessoa deve ser sempre humilde aceitando tudo e todos. Deve sempre fazer o bem mesmo quando recebe, na maior parte das vezes, o mal. Um artista deve fazer o mesmo. Deve ser sempre humilde, ao ponto de aceitar todas as críticas e de aceitar também a arte dos outros. O que para uma pessoa é arte para outra pode não ser. Mas acho que artista que é artista consegue sempre ver arte em tudo e aceita-a como tal. Fica sempre bem e só enriquece o artista quando este é humilde ao ponto de só querer aprender e crescer aprendendo cada vez mais com os outros e com a arte dos outros. Maior é o artista que é humilde, pois humildade é sentir mais e pensar menos, é amar mais e odiar menos, é o ser pouco não mostrando ser o muito.

Quais são as principais diferenças entre o Hélder artista e o Hélder pessoa?
Considero o Hélder artista mais alegre que o Hélder pessoa. O Hélder artista é aquele que existe dentro do Hélder pessoa, quase que como o sonho do Hélder pessoa, tudo o que ele anseia ser. Mas há momentos em que o Hélder pessoa e o Hélder artista são a mesma pessoa e estão a ser mostrados ao mesmo tempo. O Hélder pessoa considero que, dependendo da sua companhia, varia em mostrar muito ou pouco o seu Hélder artista. Quanto mais o Hélder artista aparece, mais feliz o Hélder pessoa é e em melhor companhia se sente. Acho que no dia-a-dia, na escola, na rua, o Hélder pessoa é naturalmente muito sério, o que para as pessoas ao seu redor faz pensar que seja tímido, fechado, calado, alguém que nunca na vida seria uma espécie de Hélder artista, este que é alegre, risonho, humilde, etc. Tento sempre ser eu mesmo e o Hélder artista apenas aparece quando deve aparecer, daí haver o Hélder pessoa e o Hélder artista. A maior diferença diria que é a força de viver, sentir e amar, sendo maior no Hélder artista do que no Hélder pessoa.

Há mais amor na arte ou há mais arte no amor? 
A arte e o amor são duas coisas inexplicáveis, na minha opinião. Varia de pessoa para pessoa. Umas apreciam arte outras não. Umas amam outras não. Umas sabem o que é a arte mas não ligam. Umas sabem o que é o amor mas não ligam. Outros sabem bem o que é a arte e anseiam por isso mas nunca chegam a obter. Outros sabem o que é o amor e anseiam por ser amados mas nunca o são. Em relação ao amor na arte eu acho que a arte só surge quando feita com amor, com sentimentos, com emoções, com cor, se não, não é arte. E de facto, depois de esta ser executada, também é certamente apreciada com muito amor pelo apreciador. Este irá sentir todo o amor que a obra de arte contém. Todo o amor que o artista transmitiu para a sua obra de arte. Acho que amor na arte há muito. Todo o artista sente, vive e ama. Em relação à arte no amor acho que o amor é uma arte, é inexplicável. O conseguir amar já é um dom. O conseguir amar alguém que nos ama, alguém que não existe, alguém que não nos ama, alguém imaginário, etc. Todos estes tipos de amor, são inacreditáveis e inexplicáveis. A arte de amar é rara e bonita. É o amar que, para mim, define uma pessoa. Quanto mais uma pessoa sente, mais ela ama, mais ela vive. Acho que estão 50/50. Tanto há amor na arte como arte no amor. Mas se tivesse que optar por uma, escolheria a arte no amor, a arte de amar, porque isso iria levar-me de certeza a fazer tudo com amor, que por sua vez iria fazer com que tudo em que tocasse ganhasse vida e se tornasse em arte.

Estás no 12ºano do curso de artes visuais. Que objetivos tens para depois de concluíres o ensino secundário? 
O meu objetivo é continuar a amar todos, continuar a fazer aquilo que amo. Certamente irei ficar com menos tempo na minha vida, ficarei certamente mais ocupado após entrar num curso superior, mas quero, mesmo assim, não deixar de fazer o que mais amo, principalmente a música e teatro. O meu objetivo é nunca deixar de viver com amor e procurar fazer o que amo.

Acreditas que a arte é capaz de mudar o mundo? Enquanto artista sentes-te capaz de mudar o mundo ou contribuir para isso? 
Sim, a arte é capaz de mudar o mundo. Porque a arte é definitivamente amar, logo o amor é, para mim, o principal fator para mudar o mundo. A arte é onde as pessoas mostram o que realmente sentem, seja lá que tipo de arte for: música, poesia, dança, canto, pintura, tudo mesmo. Sentir é arte. Amar é sentir. Logo arte é amar. O artista é o que ama, alguns dos artistas têm um carinho especial pela sua arte, mas penso que todos os bons artistas aceitam todo o tipo de arte. Revertendo para o amor, nós podemos amar todas as pessoas, mas vamos sempre amar as que nos são mais próximas, às quais temos um carinho especial. O artista, o amante da vida, não digo que é capaz de contribuir para mudar o mundo mas sim capaz de mudá-lo, nem que seja sozinho. Este tem que se sentir capaz de tudo, ao sentir somos capazes de tudo, basta sentir, basta amar. Ao deixarmos o nosso amor no mundo, no próximo, nas pequenas coisas do dia-a-dia, o mundo começa a mudar, nem que seja só para nós, os amantes da vida. O mundo do artista é o seu próprio mundo, não o que os outros pensam, não o que os outros sentem. Toda a gente é capaz de mudar o seu próprio mundo, quando falamos em mudar o mundo devíamos falar em mudar o nosso próprio mundo, a nossa própria maneira de viver, sentir mais, amar mais! Isso é o que realmente falta no mundo, ter consciência que o mundo é de cada pessoa. Cada pessoa tem o seu próprio mundo a par de bilhões outros mundos que existem. Sentimos de maneiras diferentes, amamos de maneiras diferentes, vivemos de maneiras diferentes. Não queremos mudar o mundo para torna-lo monótono, queremos e devemos sim mudar o nosso próprio mundo, faze-lo mais feliz, mais vivo, mais colorido, com mais sentimento, emoção e amor! Todos nós somos artistas. Apenas uns mais que outros. Porque todos sentimos. Uns mais e outros menos. Uns mostram o que sentem outros não. Se nós mudarmo-nos com o objetivo de viver com amor, o mundo definitivamente muda para nós.
A declamar um dos seus poemas, na apresentação do seu livro (foto: M.A)
Como imaginas a tua vida daqui a 10 anos? 
Daqui a 10 anos, em 2026, terei os meus 28 anos. Ora bem, imagino-me já formado em algum curso que goste, possivelmente já a trabalhar. Serei certamente ainda um grande amante de música e de teatro. Espero que por essa altura já tenha encontrado o amor da minha vida, para me casar por volta dos 30 anos, para poder começar a construir a minha família, para poder amar ainda mais do que o que amo, para trazer mais artistas ao mundo, para poder criar um mundo melhor. Quero que todos os que amo estejam presentes daqui a 10 anos, pois fazem parte de mim, e se partirem é uma parte de mim que parte com eles também. Gosto de imaginar que vou amar e ser amado.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Livres ou libertinos: eis a questão

Somos netos daqueles que viveram oprimidos e somos filhos daqueles que foram criados pelos que viveram oprimidos. Quatro décadas não são suficientes para que se apaguem todas as marcas, as consequências da ditadura sentem-se ainda nas novas gerações. 
Dos oprimidos aos que são livres, ainda sem o saber, e destes aos que usam a liberdade como argumento para tudo. Aqueles que, talvez por desconhecerem o que é não ser livre, desconhecem o que é a liberdade. 
Hoje, todos se consideram livres, no entanto, poucos fazem um correto uso dessa mesma liberdade. Porque, meus amigos, liberdade não é fazer e dizer tudo e mais alguma coisa. Liberdade não é não ter limites. 
Hoje, não há liberdade a mais, como outrora defendi. Hoje, há mais libertinagem do que liberdade. 
Vivemos, aqueles que nunca por lá passaram, pseudo amedrontados com a ideia da ausência da liberdade, e queremos, assim, usá-la por nós e pelos nossos avós que não a conheceram, queremos afirmar-nos como alguma coisa, queremos simplesmente dizer e fazer tudo o que nos apetece - só porque sim. 
"Posso porque sou livre"
Podes. Mas não podes tudo!
Liberdade não é humilhar o outro. Liberdade não é limitar o outro. Liberdade não é poder desrespeitar. Liberdade não é mandar. Liberdade não é viver sem regras. 
A liberdade é preciosa, por isso, custou tanto a conquistar! E como bem precioso que é, deve ser preservado, deve ser corretamente utilizado. 
É assim tão díficil perceber os limites da liberdade? 
"Liberdade significa o direito de agir segundo o seu livre arbítrio, de acordo com a própria vontade, desde que não prejudique outra pessoa...", basta ir ao dicionário, seria tão mais fácil que todos questionassem o que é a liberdade, antes de se atreverem a impor-se como livres. 
Ninguém tem o direito de dizer que é uma coisa que nem sabe o que significa. Porque, de entre todos os que se dizem livres, muitos são apenas libertinos. 

sábado, 16 de abril de 2016

Mas ai que tu és real

Eu estava em trabalho quando te avistei. Depois de conhecer o teu sorriso por fotografias e a tua personalidade pelas palavras que escrevias. Terás, algum dia, por acaso, reparado numa fotografia minha ou lido as minhas palavras? Quiçá. Desvio-me para que não nos cruzemos. Não estou bonita hoje. Estou em trabalho. É de manhã e passei a noite num bar desta cidade a beber. Apanhei o cabelo porque não tive tempo de o lavar e está áspero e cheira a tabaco. Não me maquilhei, pois seria estúpido tendo em conta as circunstâncias. Vesti umas calças de ganga, calcei as minhas vans e vesti uma sweatshirt. Tenho um bloco de notas e uma caneta na mão para anotar as perguntas da entrevista que vou fazer, mas só me apetece anotar a sutileza de cada movimento teu. Acabo de me perder. Já não sei para onde me dirijo, e eis que depois do desvio caminho mesmo atrás de ti. Inspiro fundo na esperança de inalar o teu perfume, porém, lembro-me que o desconheço. És real. Agora não resta superfície para dúvidas. És real e ai que morro por saber que és real. Abro o bloco de notas e começo a escrever. A sensualidade com que mudas os pés e caminhas, lançando charme na minha mente, o teu cabelo que o vento desloca lentamente. Não deixo que nenhum detalhe me escape. Terminaram as folhas deste bloco. A entrevista vai ter que ficar para outro dia. Mas ai que tu és real. Ninguém me contou, eu vi(-te).

terça-feira, 12 de abril de 2016

"O Alto" em alta

Se, antes, me falassem de Marco de Canaveses, provavelmente, pensaria em tudo, menos numa série de TV. 
No entanto, hoje, este território do distrito do Porto, deu ao país, mais que entretenimento, inovação e mostras de talento. 
"O Alto", assim se chama a minissérie, de 7 episódios, que chegou à televisão na semana passada e, diz a comunicação social, "apaixonou os portugueses". 
Em 1960, durante o regime salazarista, a família João-Azevedo é, pela existência da PIDE, forçada a abandonar as terras marcoenses e exilar-se. Para trás, ficam amores proibidos, ficam segredos por desvendar e ficam vinganças por servir. 
Em 1980, o ecrã colori-se e a família regressa a Marco de Canaveses, onde as mudanças já se sentem: um país onde já não há ditadura, um visconde onde já não existem títulos, uma casa que o tempo desasseou. 
Há descobertas para fazer em cada um dos 7 episódios. 
Sendo uma série de amadores, nem tudo é, naturalmente, perfeito. Apesar disso, o empenho é notório. Embora nem todos os atores sejam sensacionais a representar e existam personagens com aparelho nos dentes, a série não perde a magia, para aqueles que, durante pouco mais de meia hora, se deleitaram sobre o ecrã.
A RTP2 está, mais uma vez, de parabéns, por se distinguir dos outros canais, com a sua programação de requinte. 
Os Alphatones (grupo produtor da série) estão também de parabéns, quer pelo trabalho realizado, quer por terem feito esse mesmo trabalho ser partilhado com todos. 
A banda sonora é deliciosa, a história é arrebatadora, cada personagem é especial e seria impossível eleger uma favorita. 
O último episódio é, talvez, o mais forte a nível emocional. 
A história acaba sem acabar, muitas revelações ficam por fazer, amores ficam por reencontrar, palavras ficam por dizer, acontecimentos ficam por acontecer, e uma questão por responder: tudo ficará por aqui?