sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Não se amam as ausências

-Amo-te 
Silêncio. 
-Entendes o que quero dizer? 
Indagações mentais. 
-Amo-te, neste momento. 
Agora percebes. 
O amor floresce em cada momento. Não é o mesmo amor que nos acompanha em vários momentos. Amamos no momento. Passado o momento não amamos mais, a não ser as memórias que ficaram desse momento. 
-Amo-te, neste momento 
Neste momento em que me deixo envolver pelo calor dos teus braços e em que te beijo apaixonadamente. 
-Amo-te 
Amanhã já não te vou amar. Daqui a uma hora já não te hei de amar se já não estiveres comigo. Não podemos amar ausências. Não amamos as pessoas quando elas não estão connosco. Amamos cara a cara. Não amamos as pessoas pelas mensagens que nos enviam, amamos o sorriso que permitem o nosso rosto estampar, a sensação de felicidade que provocam em nós.
-Amo-te tanto! 
Amamos intensamente, com toda a força, com toda a dedicação, porque o amor nunca esgota, e quanto mais se exercita mais se tem. Amamos no momento. Depois do momento, só amamos as memórias. E só amamos as memórias quando nos lembramos delas. Não amamos todas as memórias ao mesmo tempo porque não pensamos em todas ao mesmo tempo. Amamos e desamamos conforme o contexto. 
Amamos porque somos humanos e temos esta capacidade única de amar. 
Temos, porém, que perceber que o amor não é como nos ensinaram os contos de fadas. O amor não é um "para sempre", o amor é momentâneo por mais reles que possa soar esta afirmação. 
Não nos sentimos sempre da mesma forma. Por vezes, sentimo-nos felizes, noutras vezes, sentimo-nos tristes. Nenhuma felicidade dura sempre, nenhuma tristeza é eterna, o mesmo acontece com o amor. Sentimo-nos amantes durante alguns momentos. Noutros momentos, existirão outras sensações para saborear. Por vezes, misturamos algumas. Tudo bem. Um misto de sentimentos nunca matou ninguém (penso eu). 
-Amo-te, ok? 
A única opção é assentir. O amor dá-se e recebe-se. No momento. 
Desilusões amorosas não são, contudo, mitos. Existem. Quando nos focamos demasiado no amor que sentimos pelas memórias que alguém nos deixou, quando criamos ilusões, quando nos mentem. 
-Vou amar-te para sempre - isto nunca se diz!! 
-Amo-te - quando te disserem isto, lembra-te: é no momento, não é para sempre!, não te comeces já a iludir. 
Pronto. Assim ninguém se ilude. Amamos no momento. Depois do momento, é seguir em frente. Temos recordações, vamos amá-las de vez em quando até que fiquem calcadas por novas recordações, novos momentos em que amamos.
Amar não pressupõe qualquer compromisso. Portanto, podemos amar assim. Só não temos que enganar ninguém. E ninguém tem que se iludir. 
Um amo-te é dito no presente. Passado uma hora, esse presente já é passado. 
-Amo-te 
-Amo-te 
Amemos em cada momento. Amemos com todo o coração, com todo o amor, sem pensar, sem reclamar. 
Mas amemos as pessoas e paremos de amar as memórias. 
Agarramo-nos às memórias do passado e ficamos cegos para o presente. 
Amar é um verbo que só se deve conjugar no presente. 
-Amo-te 
Jamais 
-Amei-te 
Nunca
-Amar-te-ei.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Escreve-me. Ou lê-me.

És a peça em falta. Tu que eu não sei quem és. Tu que estás algures fora ainda da minha vida. Tu que eu procuro incessantemente em noites de insónias. Tu de quem eu sinto a falta nos meus momentos de nostalgia profunda (é de ti, certamente). Tu que me deixas vulnerável com a tua ausência. Tu. Apenas tu. 
Por onde andas, mesmo? Vais contar-me quando cá chegares, não vais? Eu vou querer saber. Vou indagar!, prepara-te. 
Não te peço muito. Apenas que me ames e me deixes amar-te. Apenas que me completes.
És capaz? Serás? 

Escreve-me. Ou lê-me. 
Não imaginas como me apaixono facilmente por palavras. Os gestos são bonitos, encantam. Mas as palavras apaixonam. A delicadeza de uma frase pode superar a de um braço ou a de um beijo.
Se não te deres bem com a escrita, então, lê-me. Até porque posso escrever para ti. Queres? Eu iria gostar muito, tenho a certeza. 
Não é pedir muito pedir que me escrevas ou que me leias, pois não? Não pode ser. Aliás, até faculto duas opções. Ou me escreves. Ou me lês. Podes escolher. 
Já te escrevo e ainda não me lês. Mas um dia vais ler. Se não leres, vais escrever-me. É para ti que escrevo, para ti que hás de ler, a menos que me escrevas. 
Podes ler-me no silêncio das minhas palavras, por vezes. Podes ler-me na calmaria do meu olhar, ou na sua confusão, será conforme. Podes ler-me das minhas atitudes de amante. Podes, se quiseres, ler-me nos meus sonhos, nos meus medos.
Acredito que escrever-me seja uma tarefa mais penosa. Afinal de contas, sou extremamente crítica e poucos autores me agradam.
Vou escrever-te com toda a minha inspiração. E tu vais ler-me. E eu vou ficar grata e feliz por isso. Oxalá tu também fiques (feliz).

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

"Quando não nos lembramos simplesmente achamos que não existimos" - Patrícia Rebelo

Patrícia Rebelo é autora do livro "Um Dia Disseste Que Eu Devia Escrever Um Livro"  - um relato sentido de uma jovem que perdeu dois anos de memórias, tendo que enfrentar uma vida da qual não se recorda. 
A autora com o seu livro
A escrita é, para ti, um refúgio ou vai além disso? 
A escrita, para mim, é um refúgio. É o tentar expressar os meus sentimentos, é o tentar resolver os meus problemas e conseguir encontrar alguma resposta para eles, mesmo que tenha que ser eu a dar essa resposta.

"Um Dia Disseste Que Eu Devia Escrever Um Livro" - porquê este título? 
Porque foi, efetivamente, isso que o Diogo me disse. Este livro é muito acerca do Diogo, que é o rapaz com quem eu namorei, e é muito direcionado a ele, quer eu queira quer não. Eu andei muito às voltas com o título, a certa altura não sabia que título colocar. Mas, um dia, escrevi um texto que se chamava "Um Dia Disseste Que Eu Devia Escrever Um Livro" e foi do género: É este!

Sentes que deste demasiada importância ao Diogo? 
Sim. Mas toda a gente dá demasiada importância ao primeiro amor, portanto...

"Cartas À Tua Ausência" era, inicialmente, o nome da tua página no facebook. Que tipo de conversas podemos ter com a ausência?
Várias. Eu com a ausência do Diogo tive bastantes. As primeiras foram conversas de raiva do género: porque é que ele estava ausente? porque é que ele não dava um passo para estar presente? Depois foi deprimir por causa dessa mesma ausência. Há muitos textos em que tu deprimes e consegues criar ali qualquer coisa. E, efetivamente, depois é o bater a porta e: "ok, minha amiga, vamos ter uma conversa a sério por tudo aquilo que eu passei", e resolver o assunto. 

Escrever sobre sentimentos é um ato de coragem ou desespero? 
Nem uma coisa nem outra. Há pessoas que me disseram que era de coragem por expor os meus sentimentos. Outras pessoas disseram-me que seria um bocadinho de desespero. Eu não acho que seja nenhum dos dois. Eu acho que cada pessoa arranja uma forma para se conseguir resolver, naquele momento aquela foi a minha forma. Portanto, foi uma forma de resolução.

Acreditas no amor? Sentes-te capaz de voltar a amar? 
Sim. Até aqui não conseguia porque tinha sempre o Se. Se fosse com o Diogo, se resultasse... Neste momento, isso já não acontece. No entanto, o rapaz que vier agora vai ter que provar muita coisa. Não chega dizer: "olha eu gosto muito de ti, vai ser para sempre" porque isso já não pega. 

Se pudesses voltar atrás e escolher, evitarias a perda da memória ou sentes que aquilo que acabaste por ganhar com isso superou dois anos de memórias esquecidas?
Isso é uma pergunta complicada! A perda de memória não foi algo que eu escolhi. Antes da perda da memória sei que tomei decisões minhas das quais estava muito segura. Se calhar, se não tivesse perdido a memória ainda estaria com o Filipe, todos diziam que tínhamos um namoro firme. Mas se calhar também não tinha dado origem ao livro, não me tinha descoberto na escrita, que tinha sido uma coisa que eu tinha deixado um bocadinho para o lado. No meio disto tudo, já aprendi a lidar com a perda da memória.

É difícil, para ti, imaginar como é que seria se não tivesses perdido a memória?
Sim. Sim até porque para isso teria que colocar o Filipe e uma data de situações que para mim não existiram e existem só porque as pessoas me dizem que existiram, mas aquilo que eu fiz quando perdi a memoria foi voltar ao Diogo, que era aquilo que eu conhecia. Por isso, se não perdesse a memória não sei o que havia ali, portanto, não faz sentido ponderar sobre isso. 

"Como sobrevivemos quando já não nos lembramos de quem somos?"
Não sobrevivemos. Este livro é a prova disso. Tenho um capítulo, que é o 56, que fala exatamente da perda da memória e mostra que não conseguimos sobreviver, vamos lidando com isso, reconstruindo a nossa vida. Mas não sabemos o que há ali para aprender. Por exemplo, não vejo a minha vida agora a fazer planos, também não acho que seja uma questão de sobrevivência, mas uma questão de defesa. Quando não nos lembramos simplesmente achamos que não existimos, há uma parte que não é nossa, há uma vida que não é nossa e toda a gente diz que é. Termos que lidar com isso é desesperante e não conseguimos viver nem sobreviver com isso. Quando conseguimos encaixar isso e chegamos ao ponto de "ok, de facto temos que lidar com isto porque isto aconteceu, eu perdi a memória, há uma vida de que não me lembro, vamos encaixar isso" é muito complicado. Eu olhava para as fotografias e não achava que era eu, não me lembrava. Por isso, não se sobrevive. É apenas um dia de cada vez. Este livro mostra isso. Acabamos por não fazer planos e o futuro é um dia de cada vez. Vamos vivendo.
Cátia Cardoso Entrevista Patrícia Rebelo

Não perdoo os contos infantis!

Nunca vou perdoar o mundo, a sociedade, as pessoas, pela forma como me iludiram. 
Dizem que a adolescência é a fase das questões. Quem somos? O que é a vida? O que queremos ser? Etecéteras. Etecéteras. Questões mais profundas que nos levam para reflexões, desilusões. 
Porquê? Porque a infância é a fase em que nos iludem de todas as formas e feitios. 
Há algum conto infantil que tenha um final triste? Não. Porquê se na vida o que mais há em falta são finais felizes? Qual é a necessidade que há em que se iludam as crianças? Está bem que é bonito olhar para trás e recordarmos a infância como a fase mais feliz da nossa vida. Acontece que, quanto mais feliz é a infância, quanto mais iludidos somos, mais desilusões teremos, depois, que enfrentar. Mais sofreremos no futuro. Porque é que iludem tanto as crianças? 
Nunca escrevi para crianças. E muitas vezes já mo pediram. Ainda não o fiz, porque não sei como o fazer. Não quero iludi-las com contos de fadas que terminam com um "viveram felizes para sempre." De onde vem esta expressão? Dos contos infantis! Sim, é tudo muito lindo e mesmo em adultos todos adoram recordar estes contos. Mas vocês acreditam em finais felizes? Ou a vida mostrou-vos que estes são apenas utopia? A vida não vos provou o quão utópicos são os contos da vossa infância? Gostastes, pois, de enfrentar a realidade tal como ela é, com todas as suas consequências e dores? Não me parece... 
Claro que é díficil explicar a uma criança que a vida não é como sempre queremos. Mas dizer-lhes constantemente que tudo é maravilhoso não é o mais correto. Deve, sim, explicar-se-lhes, aos poucos, num processo gradual, que nem sempre as coisas acontecem como queremos. Às vezes sim, mas outras vezes não. Para conseguirmos aquilo que queremos temos que lutar muito e, por vezes, uma grande luta não é suficiente. 
Podemos ser felizes. Mas não completamente felizes. Haverá sempre algo em falta. Não se pode ter tudo. Por vezes, temos que fazer opções. Abdicar de umas coisas em prol de outras. 
Se isto fosse explicado às crianças, que progressivamente entenderiam, haveria, na sociedade, menos jovens deprimidos e desiludidos com a vida. 

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Que dezembro é este!?

Estamos em dezembro e eu estou triste: não há chuva. 
Tenho saudades dos dias chuvosos, de sair de casa acompanhada pelo meu guarda-chuva e de voltar, à noitinha, semi-encharcada. 
Este ano está a ser muito diferente. É dezembro e não há chuva, nem neve...! Os dias têm sido solarengos e eu não estou a gostar. Porque é que está tudo tão desorganizado? Não chove este inverno? 
Está tudo a perder a piada, assim. 
E eu estou entediada. Quero chuva. Onde posso pedir o livro de reclamações para expressar o meu desagrado perante a sua ausência? 
O outono está perto do fim e tem sido um outono excessivamente seco... Bonito, como todos os outonos, mas muito deprimente. 
Está tudo tão estranho. 
2015 está a ser estranho. Este outono está a ser estranho. E dezembro, está-se mesmo a ver, vai ser estranho. 
Estranho é diferente. Mas este não é um diferente positivo. Nenhum diferente o é. Diferente não é algo que possa caraterizar-se como negativo ou positivo. Simplesmente, estranho é um diferente mais negativo do que positivo. 
E este dezembro, este outono, este ano estão a ser muito estranhos.