segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Sou livre... Tão livre que me sinto sozinha.

Sou um ponto pequenino e escuro numa cidade grande e iluminada.
Sou livre... Tão livre que me sinto sozinha. 
Ouço as rodinhas da minha mala sobre os paralelos da calçada. 
Olho à minha volta. Em dois segundos, duas mil perguntas aparecem no meu pensar. São tantas que tenho dificuldade em percecioná-las, quanto mais em responder-lhes, a todas.
É tudo novo e até mesmo estranho. 
A cidade. As pessoas. Aquele sítio a que chamamos casa. 
Mil e uma emoções percorrem o meu corpo. Sinto frio. É mania minha usar vestidos e saias no inverno. Gosto mais. Mas esta cidade é fria. 
É, ainda assim, talvez a única cidade cujo frio acolhe. 
Embrulho o pescoço no cachecol e mergulho nele o queixo, cobrindo os lábios. O vento baloiça-me os cabelos. Tenho que os cortar. Estou saturada deste cabelo comprido. É bonito e eu gosto, mas dá trabalho e está sempre igual, preciso de mudar!
Olho à minha volta. As perguntas são já cerca de três mil. Não lhes sei responder e isso leva-me a um estado de frustração. 
A frustração é quase já desespero e, num misto de emoções, as lágrimas surgem. Surge também o autocarro. Passo a mão sobre o rosto a fim de o secar e entro no autocarro. Ainda tenho que terminar alguns trabalhos para entregar amanhã.

domingo, 29 de novembro de 2015

Saudade Esquecida

Como é possível que as pessoas esqueçam tão facilmente? Esquecem o que dizem, o que fazem e, pior, esquecem-se umas das outras... Esquecem momentos, atitudes, palavras, amizades. Como se esquecem os sentimentos? Como se esquece algo cuja definição é o sentir e não o definir!? É difícil de entender e, pior, é difícil de aceitar. 
Saudade é uma palavra que não existe em todas as línguas. Agora percebo. As pessoas não sentem saudades? Não. Nem todas as pessoas sentem isso. Então, esta palavra não deveria existir apenas em algumas línguas, mas sim em algumas pessoas, naquelas que conhecem a dor da saudade, sim, porque a saudade dói, mas as pessoas esquecem-se disso. 
O termo saudade é, contudo, injusto. Existe para uns que não sentem e não existe para outros que, às tantas, até sentiriam...
As pessoas esquecem-se de sentir saudades. Talvez não queiram, talvez não tenham tempo para isso. 
É pena. 

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Amores de Outono

A chuva cai. Cada pingo de água transporta mais aconchego que o anterior. 
Porque só se fala em "amores de verão"? É proibido amar no inverno? E no outono? 
As folhas acastanhadas que esvoaçam em redor da árvore estão apaixonadas. Só podem estar. Que outra razão as levaria a voar, incansavelmente, só porque o vento assim decretou? Aposto que estão todas apaixonadas pelo vento. Esse senhor com ar de altivez mas, desenganem-se, é um cavalheiro e tudo o que faz com as folhas serve para lhes mostrar que a vida não é só estar-se pendurada num ramo de uma árvore, aconchegada pelos frutos. Há a possibilidade de viajar, de conhecer outras árvores e outras folhas, todas diferentes. 
Amores de Outono. Aposto que são mais verdadeiros que os de verão. 
As árvores despem-se, exibindo a sua essência. Os seus ramos quebram, só os mais fortes resistem. As folhas viajam, o vento é o seu guia turístico. 
Humanamente falando, o amor, no outono, assume uma dimensão mais afetuosa, mais pura, é seguro dizer. 
Amores de verão... O que são rascos e passageiros amores de verão comparados com o requinte dos avassaladoramente inesquecíveis Amores de Outono?