quarta-feira, 3 de junho de 2015

Madalena

Bruno era um jovem um pouco diferente dos seus colegas de turma. Enquanto que todos eram loucos por correr atrás de uma bola, Bruno tinha uma outra paixão que não o futebol. Uma bicicleta era o único objeto capaz de o fazer sorrir nos seus dias menos bons. Sempre que estava mal, saltava para cima dela e pedalava com toda a força. Por vezes, acabava no chão e com o joelho ou o cotovelo a sangrar, mas nada o fazia sentir-se tão feliz como andar de bicicleta.
Naquela tarde de primavera, tinha recebido uma nota, que considerava péssima, no teste de Português, como estava no 12º ano e queria muito entrar para a universidade e sabia que precisava de alcançar uma boa média, isso deixou-o assaz irritado. Lá foi ele encavalitar-se na sua melhor amiga e descarregar a sua frustração.
Pedalou a toda a força sem parar, e ao final do dia, quando se preparava para regressar a casa, deparou-se com uma jovem, sentada num banco de jardim, com a sublime face coberta de lágrimas, pondo em prática as suas melhores aptidões de amigo, Bruno salta da bicicleta e aproxima-se dela, tentando perceber o que se passava.
- Está tudo bem? - pergunta-lhe, mostrando-se preocupado.
A jovem arregala um pouco os olhos e, limpando as lágrimas, confessa:
- A minha melhor amiga traíu-me.
- Com o teu namorado? - interroga Bruno.
- Não, não tenho namorado. Traiu-me, pois descobri que contava todos os meus segredos à sua outra melhor amiga, com quem eu não tenho a melhor relação...
Bruno, que nunca suportara a traição, tentou a todo o custo animar a rapariga e fazê-la sentir-se melhor (...)
E o tempo avançou, Bruno e Madalena tornaram-se amigos, melhores amigos e a paixão surgiu, seguida do amor.
Ambos seguiram os estudos, ele em medicina, ela em comunicação social. Porém, continuavam amigos, nenhum tivera, ainda, coragem de expôr ao outro os seus sentimentos, a cumplicidade que os ligava era inegável, no entanto, o receio de um amor não correspondido pairava tanto sobre um como sobre o outro. 
Esse receio aumentou ainda mais logo no primeiro ano de faculdade quando Leandro, um colega de curso de Madalena, lhe confessou que a amava, deixando-a perplexa. Bruno foi imediatamente assombrado pelo possível amor de Madalena e Leandro. O seu coração mandava-o confessar, de uma vez por todas, o que sentia a Madalena, mas a sua cabeça dizia-lhe que era uma péssima ideia, uma vez que já o devia ter feito antes, se o fizesse agora que Madalena tinha um pretendente, esta jamais acreditaria nas suas palavras.
Sentiu-se num beco sem saída, por isso, foi à garagem buscar a bicicleta e pedalar o dia inteiro, apenas com uma única refeição. Estava nervoso, confuso, sentia em si um misto de emoções que nem ele sabia ao certo caraterizar. Contudo, com o passar tempo, Bruno acabou por se afastar de Madalena, fazendo-a pensar que, afinal, nem a amizade que tinham era verdadeira. E foi num momento de carência que Madalena aceitou o pedido de namoro de Leandro.
Foi aí que Bruno e Madalena perceberam que os seus destinos não estavam tão cruzados tanto quanto o que pensavam, deixaram de se falar por completo, embora todas as noites adormecessem um a pensar no outro, nenhum era suficientemente corajoso para ir falar com o outro e tentar recuperar a amizade. Bruno pensava que Madalena não o procurava porque apenas queria saber de Leandro e Madalena pensava que Bruno se fartara dela. Mesmo a namorar com Leandro, Madalena tinha noção que não era por ele que o seu coração batia, simplesmente não era capaz de terminar com ele, não o queria magoar, sabia que nao estava a ser correta, mas não era capaz de recuar nas suas decisões. Orgulhosa? Talvez, sim, talvez o estivesse a ser, e muito!
Madalena sentia-se egocêntrica por estar a enganar Leandro, mas logo perdeu essa sensação quando este a traiu com Ângela, uma amiga de curso de Madalena. Bem, na realidade Madalena não se sentiu assim tão traída quanto isso, pois também ela não amava de verdade Leandro, aliás, isto apenas ajudou Madalena a terminar a relação, sem se sentir culpada.
Assim que se livrou de Leandro e Ângela, a primeira coisa em que Madalena pensou foi em falar com Bruno, tal como quando Bruno soube de tudo isto pensou em falar com Madalena. Desta vez, Madalena cedeu e ligou a Bruno, pedindo-lhe para marcar um encontro. Nesse encontro, ambos confessaram, finalmente, o que sentiam um pelo outro e perceberam que foram uns grandes parvos por terem escondido isso durante mais de um ano, pois desperdiçaram imensos momentos de felicidade!
Naturalmente que começaram a namorar e viveram grandes momentos juntos. De facto, o que os ligava era amor, sem qualquer dúvida, embora tivessem deixado que o tempo lhes roubasse bons momentos, agora que os tinham, aproveitá-los-iam de todas as formas. Ou deviam tê-lo feito. (...)
E se hoje escrevo tudo isto é porque tive necessidade de partilhar com alguém a minha história, tanto que fiz o Bruno pedalar, que ele acabou por pedalar para fora da minha vida! Hoje sei que assim que percebi que gostava dele lhe devia ter dito, sei que nunca devia ter namorado com o Leandro, nunca me devia ter dado bem com a Ângela, sei que não devia ter discutido com o Bruno naquele dia. Já se passaram trinta anos desde o dia do acidente e ainda penso nele. Sinto-me culpada por o ter feito pedalar daquela maneira furiosa que o matou.
Conto-vos isto para que não cometeis o mesmo erro, não escondam os vossos sentimentos, libertem-se, só assim podereis alcançar a felicidade perpétua. Eu errei apenas uma vez na minha vida, e com esse erro destruí toda a minha felicidade. Sem o Bruno aqui, não sou ninguém, não passo de uma concha vazia esquecida pelo mar, vivo apenas esperando que a morte me leve para junto da única pessoa que amei em toda a minha vida!