quarta-feira, 26 de abril de 2017

Flo-rir


Se as flores não são amor 
Então, o que é amor, se não nada? 
Se as flores não são amor 
Então, que outra definição gerada? 

Que tempos são estes de sol 
E com a ânsia do primaveril 
O florescer das cores e das flores 
A imponência do manto de abril? 

E se as flores não são amor? 
Então, as flores o que são? 
São amor as flores, só podem ser 
Só podem ser sinónimo de paixão! 

Então, vem-te, primavera 
Possui todas as flores do mundo,
Dá aos campos fortes orgasmos 
Dá-nos a nós um amor profundo.

terça-feira, 25 de abril de 2017

Pedra Filosofal


Que o sonho continue a comandar a vida, mesmo que continuemos a confundir liberdade com libertinagem.
Oxalá, não vejamos um dia que fomos longe de mais. Oxalá, não caiamos, um dia, de novo. Já que agora somos os maiores e tudo podemos. Somos mais e melhor que todos. Somos o epicentro. Livres, sem limites. A liberdade do outro jamais será um limite para os netos da revolução. Que pena de nós!
Até onde vamos, enquanto for a libertinagem a comandar a vida, enquanto o sonho ficar de parte e a liberdade ficar por definir? 

domingo, 16 de abril de 2017

Desbotar

v.t - fazer desvane­cer ou apagar (a cor, o brilho)
v.it - perder a viveza
Fizesse sol ou - como quase sempre acontecia - chuva, era a minha época preferida do ano. Porque, mesmo que chovesse, havia já no ar os cheiros primaveris e dias antes havíamos folgado as saudades dos primeiros raios de sol. As primeiras flores já haviam desabrochado, os campos esbanjavam cor. 
Fizesse sol ou fizesse chuva, ansiava o colorido dos presentes tios, o folar do padrinho e as infalíveis bermudas da madrinha que, mal recebia, vestia para usar durante o resto do dia. 
Fizesse sol ou fizesse chuva, era o dia do ano em que mais me custava acordar, tão cedo, tomar banho em água descobrada e vestir uma roupa bonita o suficente para usar até chegar a prenda da madrinha. 
O pão-de-ló passava por mim disfarçado, enquanto me entretinha com as amêndoas e chocolates. 
Corria tantas casas quantas conseguia para dar um beijo numa cruz e cumprimentar seis ou sete vezes as mesmas pessoas no mesmo dia. 
Cor, cor, cor. Alegria, alegria, alegria. Cristo Ressuscitou, Aleluia, Aleluia...
Hoje, não importa que esteja sol porque não paira no ar a mesma magia. Os foguetes já não são especiais, os tios já não trocam prendas, o padrinho já não está entre nós, e a madrinha já não me oferece mais bermudas...
Hoje, não importa que esteja sol e que as flores continuem a desabrochar porque a cor que transmitem é desbotada. 
Hoje, não importam os cheiros primaveris quando não eles não preenchem ausências. 
Hoje, calço sandálias de salto alto e passo lápis preto na linha d'água dos meus olhos e tiro selfies com um iphone. E percebo porque se chama linha d'água, quando a água fica tão próxima de mim. Porque, na verdade, é impossível não ficar nostálgica e amargurada perante todo este apagamento. 
Era a minha época preferida do ano e, hoje, é mesmo isso: uma tentativa de não fazer jus à linha d'água dos meus olhos. 
Já como pao-de-ló e castanhas doces porque já não recebo chocolates. E as amêndoas da madrinha são diferentes. E a casa da avó está suja. Não porque não tenha sido limpa, como sempre, a mãe limpou tudo muito limpinho, mas está suja porque lhe fugiu o esmero da cor. Não só a cor que se vê, mas, acima dela, a cor que se sente. 
Faça sol - como hoje - ou faça chuva, a Páscoa desbotou. 

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Escuridão

16h24, Estação de Coimbra
O segurança conduz o senhor até um banco
E pergunta-lhe se ele se quer sentar
O senhor assente, e senta-se.


Alguns minutos depois,
O senhor levantar-se
Dá meia volta sobre o seu próprio corpo
E dá dois passos na direção da rapariga que estava sentada ao seu lado
A rapariga fica atrapalhada.
Há outro segurança que se aproxima

Agarra no braço do senhor
E pergunta-lhe onde vai
O senhor responde que, 
Já que tem ainda tanto tempo para esperar,
Quer ir ao bar.
O segurança começa a conduzi-lo ao bar,
Passam por mim
Encolho as minhas pernas que estavam esticadas
Para que não se torne necessário desviarem-se delas.

A minha vontade era levantar-me deste chão
Que conhece tantas histórias, 
Sentar-me ao lado do senhor
Que está agora no bar
E conversar com ele sobre alguma coisa.
Mas como vou falar sobre coisas
Com uma pessoa que, neste momento, 
A única coisa que vê é negro? 

Novamente, um segurança guia o senhor até ao comboio.
A minha vontade era entrar naquela carruagem
Sentar-me ao seu lado e conversar com ele
Descrever-lhe a forma como corre o rio
Contar-lhe de todas as pombas que aqui vagueiam 
Permitir-lhe que imaginasse o que o rodeia
Através daquilo que lhe ia transmitindo
Tivesse eu coragem, e faria isso!

Mas como sou fraca
E fracasso inevitavelmente perante emoções
Pego nas minhas malas e entro no comboio
Na carruagem mais distante que encontrei
Só para não ver uma vez mais
Aquele senhor que não vê. 

sexta-feira, 7 de abril de 2017

(...) Mas eu quero ser jornalista.

Foi cedo que falei em comunicação social, mas não foi tão cedo assim que falei em jornalismo. A comunicação social não se resume ao jornalismo, mas a verdade é que o jornalismo é um pedaço muito peculiar da comunicação social. Pensar verdadeiramente em jornalismo talvez tenha acontecido apenas quando chegou o momento de preencher a candidatura de acesso ao ensino superior. É, no entanto, possível que esse pensamento tenha sido fruto daquilo que os outros percecionavam quando eu falava de comunicação social. O meu percurso ficou assim marcado pela minha feliz entrada num curso chamado de comunicação social. Em setembro, toda eu queria estudar jornalismo, mesmo sabendo que a licenciatura em que me encontrava se dividiria no segundo ano em dois ramos e só um estava ligado ao jornalismo. Ignorei integralmente o outro ramo, que dizia respeito à criação de conteúdos. Editar, mexer em computadores e naqueles programas esquisitos não seria, de todo, aquilo que eu almejaria para mim. Durante todo o primeiro semestre do meu primeiro ano, quis seguir o ramo 1: jornalismo e informação. Porém, eis que chega o segundo semestre e traz consigo as cadeiras mais ligados ao jornalismo mas também à produção audiovisual. 
Enquanto que a produção audiovisual incrivelmente me apaixonava cada vez mais, a área jornalística frustrava-me cada vez mais. A certa altura, vi-me gritar aos outros e repetir para mim mesma "eu não quero ser jornalista". Apesar de os trabalhos finais de todas as cadeiras me terem agradado, quando chegou a altura de decidir o ramo, escolhi o segundo: criação de conteúdos para novos media. Foi uma decisão muito pensada e debatida. Já não afirmava com toda a certeza que não queria ser jornalista, já não odiava o jornalismo, apenas estava demasiado fascinada pela sétima arte, pela realização e produção audiovisual. Não me arrependo. Já aprendi coisas que seria impossível aprender fora da licenciatura. E se quero ser jornalista? Acho que nunca quis tanto. Porque, na verdade, agora tenho umas luzes do que realmente é o jornalismo. Sim, frustra muito. É desesperante! No entanto, é exatamente por tudo isso que é fascinante. Enquanto que o resto me apaixona, o jornalismo seduz-me, fascina-me. É impossível de se desvendar todos os detalhes jornalísticos. E é claro que eu quero desvendar tantos quantos conseguir, e é claro que eu quero ser jornalista. Hoje, mais do que nunca, porque efetivamente agora sei, o jornalismo não é só uma profissão, não é só uma forma de se fazer alguma coisa da vida. 
O jornalismo é, como já muitos disseram, uma profissão nobre. E não se pense que os aspirantes a jornalistas não sabem de como está triste e de como é desprezada a profissão. Hoje, é o dia do jornalista e eu sinto vontade de chorar. Porque eu quero ser jornalista, mas eu recuso-me - porque tenho princípios - a praticar um jornalismo sujo. Eu quero ser jornalista, mas eu quero obedecer ao direito e à deontologia da comunicação. Eu quero ser jornalista, entre tantas outras coisas que quero ser, porque ainda que não esteja disposta a dar a vida toda ao jornalismo, estou disposta a dar-lhe por inteiro o pedaço que der. Eu quero ser jornalista, porque me preocupo com a sociedade, porque quero fazer alguma coisa pelos outros, porque quero denunciar abusos e divulgar o que deve ser conhecido. Eu quero ser jornalista porque quero provar a mim mesma e aos outros que o jornalismo só é jornalixo quando nele trabalham as pessoas erradas ou se regem os princípios errados. Eu quero ser jornalista porque eu acredito no jornalismo como uma prática ilustre, quando corretamente praticado. Eu quero ser jornalista também porque sou masoquista e tenho um q.b de altruísmo, e também porque quero ter coragem. Porque, digo-vos, não acredito que os jornalistas não tenham um q.b de masoquismo, altruísmo e coragem. Eu quero ser jornalista porque o jornalismo é fascinante e me prendeu desta forma agridoce e misteriosa que me impede de me desprender. E mesmo com todos os "mas" e com toda a pena da sociedade - porque juro que ela existe - eu quero ser jornalista. Quero ser jornalista, mesmo exposta a todas as críticas e esconjuros em praça pública. Afinal de contas, se eu tenho coragem para dizer publicamente que quero ser jornalista, ai de mim que não tenha coragem de ser jornalista! 

Aqui, fica o desabafo, o conjunto de pensamentos de uma eventual aspirante a jornalista. Aspiro jornalismo com cuidado, dada a sua peculiaridade. Tenho sempre presente que esta não é uma profissão qualquer. O nome do artigo era para ser "Eu quero ser jornalista, mas...", mas afinal não há "mas" que me faça não querer ser jornalista, há sim o que não me faça querer ser jornalista repleto de "mas". Eu não vou começar a frase com "eu quero ser jornalista, mas...", eu vou acabar a frase enumerando todos os motivos pelos quais eu poderia não querer ser jornalista, dizendo "...mas eu quero ser jornalista!".

sábado, 18 de março de 2017

O mundo onde quero ser

Este não é o mundo onde quero ser. É o mundo de onde quero fugir. Este não é o mundo que eu vi, no futuro, à minha espera. Não é o mundo das histórias que me contaram e leram. Não é o mundo que me prometeram. Agora percebo quando diziam que o bom da vida é não saber o que ela é. Este mundo, este espaço de sôfregos e âmagos, este espaço de desespero e dor, de pranto e angústia, em nada se assemelha com aquilo de que sempre me falaram ao referirem-se a isto. Se isto é a realidade nua e crua tragam-ma vestida e cozida, por favor. Assim, dispenso-a. 
Dá-me a tua mão. És tu ou todas as minhas inseguranças. És tu ou todo o meu mundo repugnante. És tu. O escape único de um mundo que não é o mundo onde quero ser. Conforto é uma palavra cara e díficil de encontrar. Dá-me o teu abraço. Prende-me no teu abraço. Os teus braços são a única armadura que me faz sentir forte e capaz de enfrentar o resto. O teu abraço é conforto, é segurança, é calma e felicidade. Não há mais nada assim para mim. Não há mais nada que me seja precisa, por agora. Dá-me a tua mão e vem escutar comigo as baladas que nos ensinaram a amar. Dá-me a tua mão e despede-te de receios. Se me deres a tua mão, prometo mostrar-te um mundo que é o mundo onde quero ser. 
Quero ser num mundo de racionalidade, repleto de falhas e surpresas. Quero ser onde possa ser o meu ser com os meus defeitos que me esforçarei por amenizar e com as minhas qualidades que farei por manter. Quero ser onde, de uma forma ou de outra, tudo tenha solução. Quero ser a poesia acesa de uma vida desejada, quero ser o fado da saudade, as palavras da sinceridade. Quero ser o corpo do pecado, cometido a dois. Quero ser num mundo imperfeito, mas racional, isento de utopias, mas vivido. Então, dá-me a tua mão, e leva-me no teu abraço numa viagem pelo mundo onde quero ser. Prometo não fugir.  

domingo, 12 de março de 2017

Pedaços de Tecido

Pergunto-me se haverá algum dia um pedaço de tecido que me cubra que eu ame mais que este. Tão simples e tão valioso. 
É especial cada vez que, depois do cuidado com as meias - que muitas vezes rasgam antes de estarem completamente vestidas e raramente um par dá para mais que uma vez - visto a camisa, sempre gostei de camisas mas nunca tinha tido uma camisa branca, e esta, apesar de andar quase sempre escondida pelo preto, é a mais linda que podia ter tido. As meias devem prender a camisa, como me ensinaram na primeira vez. Depois, a gravata. Nunca me imaginei de gravata, e agora dou por mim a amar uma peça que sempre masculinizei no meu subconsciente. Depois, a saia. Que só é a minha se já passar com esforço pelas pernas acima. Encolher a barriga para a conseguir apertar também faz todo o sentido. Por cima, o colete. Elemento de distinção perante outras instituições e academias. O colete que esbelta os corpos femininos e é todo ele um orgulho que não me canso de exibir. E, por fim, capa e batina. Capa e batina rima com estudantes de Coimbra, que, por sua vez, rima com amor, saudade e tradição e tantas outras coisas, grande parte delas indescritível. 
Pergunto-me se haverá algum dia um pedaço de tecido que me cubra que eu ame mais que este. Tão simples e tão valioso. O meu traje! O traje da minha vida! Sei que do meu traje só eu conheço o valor e só eu tenho noção da dimensão do amor que lhe tenho. 
Eu sou capa e batina. Eu sou Coimbra. Sou tradição e sou amor e sou saudade do que ainda é. Sou o peso da capa pousada nos meus ombros e sou as dores dos sapatos que os meus pés calçam. Sou os bocados de terra dos Penedos da cidade e sou a história da praxe que defendo e amo! 
E não há no mundo sensação melhor que a de trajar. Que a de ter uma capa, que é sempre mais que uma capa. E venha o calor que vier, ou o frio que gele os ossos do tornozelo, não há como não amar cada um destes bocados de tecido. É toda uma felicidade que, sei, tem os dias contados. Mas que se ama no presente e se amará como passado no futuro com ... saudade!!